Postado em Crônicas. Por Geovane Belo. Em 12 de junho de 2010.
A infância é um território de imagens risórias. Quando lançamos o olhar para o passado, temos a impressão de que, além de ingênuos e esquisitos, éramos sozinhos. Começamos a experimentar a desolação própria da vida bem cedo. Nossas paixões de criança cativavam a gravidade do silêncio. Sentíamo-nos tolamente apaixonados e, no íntimo, conhecíamos a inutilidade do sentimento, a bobagem de querer a proximidade e sofrer com a distância. Amores assim demoram a findar seu curso, nascem e padecem dentro de nós. Amores não assumidos envelhecem meninos. Não declaramos paixões improváveis, tememos o fracasso declarado. Engavetamos o desejo, e ele nos corrói os papéis, os mapas, os poemas.
Numa semana em que tanto se fala de namoro, os sozinhos – abandonados, separados, iludidos, rechaçados, traídos, esquecidos - resignados em sua solidão diária, sentem-se alheios a essa coisa, dita natural ao ser humano, intitulada amor.
Os sozinhos namoram ternura e tristeza na falta que alimentam. Ir ao shopping sozinho, ir ao supermercado sozinho, às festas, aos aniversários de amigos, ao casamento dos parentes, aos jantares profissionais, às formaturas… é assombroso. E sempre lá encontrar, soberano, alguém exibindo sua mais nova conquista de amor. Arre! Há pessoas que fazem uma espécie de rodízio amoroso, enquanto outras mínguam. Falta de sorte, falta de empenho, de beleza, de simpatia, de atributos financeiros? E a maior falta de todas as faltas se avolumando no peito, restos de alguma lembrança, certas esperanças mofadas no armário do tempo.
O pior de estar sozinho é acreditar que a pior coisa do mundo é estar sozinho. Ora, o amor não é afeito a estratagemas, planos, porcentagens, não constrói projeto, não respeita decretos. Quando a demora desintegra quase todas as promessas, passa-se a conviver com um intruso na própria carne. A espera vira tormento, a solidão vira enfermidade.
Alguns sozinhos estão sempre acompanhados, reúnem paqueras, acanhadas paixões e amigos lhes sobram, consideram-se sozinhos pela ausência admitida do amor ou, pelo menos, pela falta disso a que chamamos ingenuamente de amor. Já os acompanhados muitos deles também estão sozinhos, partilham declarações e afetos, telefonemas e lembranças, mas engordam intimamente o desamparado, a viuvez própria de quem conjetura o amor, e não se vê recompensado.
Os sozinhos ouçam o consolo: “Os namorados são tristes”. Os sozinhos orem: “Os namorados são tristes”. Os sozinhos acrescentem: os namorados também são tristes. Carlos Drummond de Andrade foi capaz de dizer essa asneira. Exigiram explicações, queriam jogar pedra no Gauche mineiro. Ele, acostumado com pedras no caminho, repetiu: “Os namorados são tristes”. Os namorados, intrigados, pararam diante do adjetivo apontado para suas cabeças, acotovelaram-se na dúvida. A agudeza do verso atingiu a realidade impossível de ser dita, podiam negar, mas o peso da revelação produziu a verdade rotineira: “Os namorados são tristes”. Que bela asneira, poeta! Namorar todo mundo quer; sofrer não, obrigado. A namoração tem alegrias amenas, habituais, por isso a intensidade dos júbilos é abafada pela saudade dos prazeres intensos da solteirice abandonada.
O namoro é o momento mais precioso do afeto, queremos as trocas, os dengos, a companhia contemplativa e caridosa. Nada melhor que namorar! Beijar na boca, sexo, viajar junto, cinema. Verdade consentida. No entanto, esse julgamento é próprio de quem está sozinho, carente, desabrigado. Opinião de quem está fora de campo. Dentro da partida, a visão muda, quem está namorando descobre as complicações do jogo.
O envolvimento brota das qualidades (beleza, estilo, inteligência, simpatia, fama, profissão, conta bancária, carro…), ferramentas responsáveis pelo surgimento de um elo e pela sensação instantânea de felicidade. Ponto. Depois, a rotina lista suas discrepâncias: perda da liberdade, o cumprimento de horários, as discussões sobre tudo, a cobrança diária, os ciúmes sem controle. O namoro é a maneira mais contraditória de não ser feliz. Infelicidade desejada. Não é de hoje que o paradoxo é o recurso cativo do amor. Camões “é um contentamento descontente”. Almeida Garret “Este inferno de amar como amo”.
Dia dos namorados. Separadamente eles se amontoam nas lojas, acionam cartões de crédito, débito automático, cheque, crediário, empréstimo consignado. O valor do presente e o número de parcelas variam de acordo com o nível de afetuosidade e, principalmente, do status do ser amado. Enquanto isso, os solteiros se orgulham de não ter essas despesas, só que no fundo lastimam a solitária sorte. Só que os namorados não estão sozinhos nesse dia, sempre tem próximo um amigo descompromissado.
Na verdade, os sozinhos são a diversão e o infortúnio de quem tem namorado. Na escolha para confidente, sai na frente o amigo ou a amiga sem namorado, só ele é capaz de ouvir pacientemente e dar grandes conselhos. Alheio à prática, a teoria funciona com maestria. Um dos amigos solitários é, provavelmente, o mais divertido, tira sarro, conta piada e diverte os casais, só ele é capaz de ver os acontecimentos, registrá-los, recriá-los e possivelmente inventar muita história. O amigo sozinho pode ser meio desengonçado, meio inseguro, mas é perfeito para enviar recados, desvendar e guardar segredos. Há o amigo solteiro do tipo mentiroso, está sempre com vocês, mas vive contando vantagem, coleciona encontros que ninguém vê, aponta mulheres lindas com as quais se envolveu. Há o amigo solteiro PHD em segurar vela. Basta que você combine com o namorado uma programação e ele está lá, parte do cenário, vela da mesa de jantar, dedo na sobremesa romântica.
Namorar vale a pena sim, tem seus entraves, seus pormenores, mas ninguém consegue satisfação total nesta vida com ou sem alguém. Sabe essa coisa de não caber no mundo, essa procura de sustento, esse desajuste sem codinome, essa carência dispersa, essa falta de pretexto ou alento, essa fenda sem tampa, a tal vontade íntima de achar esperança fora da nossa casca. Somos bichos que pensam e complicam tudo. Nossa alma inquieta não suporta a serenidade, está sempre em parafuso. Pura loucura. Só conseguimos mesurar a saudade quando a distância nos abate. Só conseguimos amar absolutamente na falta.
Por outro lado, em uma época em que compromisso e fidelidade são coisas pré-históricas, quem arranjou um namorado que se preze tem mil motivos pra comemorar. Quem está sozinho cuide-se, estude, evolua, sorria, conheça pessoas, leia romances, veja filmes, viaje, pratique esportes, ouça boa música, vá ao teatro, economize um pouco, medite, dance bastante, não se alcoolize demais, descubra-se. Na falta de um amor, torne proveitosa sua liberdade e, impossível não dizer, seja um solitário sempre bem acompanhado. Quando a pessoa amada aparecer, encontrará a casa arrumada - os livros, a cozinha, os lençóis limpos, os projetos bem ordenados - será fascinante entrar e ficar.






