A casa arrumada

5

Postado em Crônicas. Por Geovane Belo. Em 12 de junho de 2010.

A infância é um território de imagens risórias. Quando lançamos o olhar para o passado, temos a impressão de que, além de ingênuos e esquisitos, éramos sozinhos. Começamos a experimentar a desolação própria da vida bem cedo. Nossas paixões de criança cativavam a gravidade do silêncio. Sentíamo-nos tolamente apaixonados e, no íntimo, conhecíamos a inutilidade do sentimento, a bobagem de querer a proximidade e sofrer com a distância. Amores assim demoram a findar seu curso, nascem e padecem dentro de nós. Amores não assumidos envelhecem meninos. Não declaramos paixões improváveis, tememos o fracasso declarado. Engavetamos o desejo, e ele nos corrói os papéis, os mapas, os poemas. 

Numa semana em que tanto se fala de namoro, os sozinhos – abandonados, separados, iludidos, rechaçados, traídos, esquecidos - resignados em sua solidão diária, sentem-se alheios a essa coisa, dita natural ao ser humano, intitulada amor.

Os sozinhos namoram ternura e tristeza na falta que alimentam. Ir ao shopping sozinho, ir ao supermercado sozinho, às festas, aos aniversários de amigos, ao casamento dos parentes, aos jantares profissionais, às formaturas… é assombroso. E sempre lá encontrar, soberano, alguém exibindo sua mais nova conquista de amor. Arre! Há pessoas que fazem uma espécie de rodízio amoroso, enquanto outras mínguam. Falta de sorte, falta de empenho, de beleza, de simpatia, de atributos financeiros? E a maior falta de todas as faltas se avolumando no peito, restos de alguma lembrança, certas esperanças mofadas no armário do tempo.

O pior de estar sozinho é acreditar que a pior coisa do mundo é estar sozinho. Ora, o amor não é afeito a estratagemas, planos, porcentagens, não constrói projeto, não respeita decretos. Quando a demora desintegra quase todas as promessas, passa-se a conviver com um intruso na própria carne.  A espera vira tormento, a solidão vira enfermidade.

Alguns sozinhos estão sempre acompanhados, reúnem paqueras, acanhadas paixões e amigos lhes sobram, consideram-se sozinhos pela ausência admitida do amor ou, pelo menos, pela falta disso a que chamamos ingenuamente de amor. Já os acompanhados muitos deles também estão sozinhos, partilham declarações e afetos, telefonemas e lembranças, mas engordam intimamente o desamparado, a viuvez própria de quem conjetura o amor, e não se vê recompensado.

Os sozinhos ouçam o consolo: “Os namorados são tristes”. Os sozinhos orem: “Os namorados são tristes”. Os sozinhos acrescentem: os namorados também são tristes. Carlos Drummond de Andrade foi capaz de dizer essa asneira. Exigiram explicações, queriam jogar pedra no Gauche mineiro. Ele, acostumado com pedras no caminho, repetiu: “Os namorados são tristes”. Os namorados, intrigados, pararam diante do adjetivo apontado para suas cabeças, acotovelaram-se na dúvida.  A agudeza do verso atingiu a realidade impossível de ser dita, podiam negar, mas o peso da revelação produziu a verdade rotineira: “Os namorados são tristes”. Que bela asneira, poeta!  Namorar todo mundo quer; sofrer não, obrigado. A namoração tem alegrias amenas, habituais, por isso a intensidade dos júbilos é abafada pela saudade dos prazeres intensos da solteirice abandonada.

O namoro é o momento mais precioso do afeto, queremos as trocas, os dengos, a companhia contemplativa e caridosa. Nada melhor que namorar! Beijar na boca, sexo, viajar junto, cinema. Verdade consentida. No entanto, esse julgamento é próprio de quem está sozinho, carente, desabrigado. Opinião de quem está fora de campo. Dentro da partida, a visão muda, quem está namorando descobre as complicações do jogo.

O envolvimento brota das qualidades (beleza, estilo, inteligência, simpatia, fama, profissão, conta bancária, carro…), ferramentas responsáveis pelo surgimento de um elo e pela sensação instantânea de felicidade. Ponto.  Depois, a rotina lista suas discrepâncias: perda da liberdade, o cumprimento de horários, as discussões sobre tudo, a cobrança diária, os ciúmes sem controle. O namoro é a maneira mais contraditória de não ser feliz. Infelicidade desejada. Não é de hoje que o paradoxo é o recurso cativo do amor. Camões “é um contentamento descontente”. Almeida Garret “Este inferno de amar como amo”.

Dia dos namorados. Separadamente eles se amontoam nas lojas, acionam cartões de crédito, débito automático, cheque, crediário, empréstimo consignado. O valor do presente e o número de parcelas variam de acordo com o nível de afetuosidade e, principalmente, do status do ser amado. Enquanto isso, os solteiros se orgulham de não ter essas despesas, só que no fundo lastimam a solitária sorte. Só que os namorados não estão sozinhos nesse dia, sempre tem próximo um amigo descompromissado.

Na verdade, os sozinhos são a diversão e o infortúnio de quem tem namorado. Na escolha para confidente, sai na frente o amigo ou a amiga sem namorado, só ele é capaz de ouvir pacientemente e dar grandes conselhos. Alheio à prática, a teoria funciona com maestria. Um dos amigos solitários é, provavelmente, o mais divertido, tira sarro, conta piada e diverte os casais, só ele é capaz de ver os acontecimentos, registrá-los, recriá-los e possivelmente inventar muita história. O amigo sozinho pode ser meio desengonçado, meio inseguro, mas é perfeito para enviar recados, desvendar e guardar segredos. Há o amigo solteiro do tipo mentiroso, está sempre com vocês, mas vive contando vantagem, coleciona encontros que ninguém vê, aponta mulheres lindas com as quais se envolveu. Há o amigo solteiro PHD em segurar vela. Basta que você combine com o namorado uma programação e ele está lá, parte do cenário, vela da mesa de jantar, dedo na sobremesa romântica.

Namorar vale a pena sim, tem seus entraves, seus pormenores, mas ninguém consegue satisfação total nesta vida com ou sem alguém.  Sabe essa coisa de não caber no mundo, essa procura de sustento, esse desajuste sem codinome, essa carência dispersa, essa falta de pretexto ou alento, essa fenda sem tampa, a tal vontade íntima de achar esperança fora da nossa casca. Somos bichos que pensam e complicam tudo. Nossa alma inquieta não suporta a serenidade, está sempre em parafuso. Pura loucura. Só conseguimos mesurar a saudade quando a distância nos abate. Só conseguimos amar absolutamente na falta.

Por outro lado, em uma época em que compromisso e fidelidade são coisas pré-históricas, quem arranjou um namorado que se preze tem mil motivos pra comemorar. Quem está sozinho cuide-se, estude, evolua, sorria, conheça pessoas, leia romances, veja filmes, viaje, pratique esportes, ouça boa música, vá ao teatro, economize um pouco, medite, dance bastante, não se alcoolize demais, descubra-se. Na falta de um amor, torne proveitosa sua liberdade e, impossível não dizer, seja um solitário sempre bem acompanhado. Quando a pessoa amada aparecer, encontrará a casa arrumada - os livros, a cozinha, os lençóis limpos, os projetos bem ordenados - será fascinante entrar e ficar.

Ladainha

3

Postado em Crônicas. Por Geovane Belo. Em 3 de junho de 2010.

Os inquietos passam a maior parte da vida à procura do que desconhecem. Os ignorantes gastam seus dias à procura do que acreditam saber. Ignorantes alegam sabedoria, riem das inquietudes humanas.  Alerto: pessoas inquietas não são propriamente sábias. O conhecimento é território da ciência, não atinge o semblante das emoções. Reconheço, tenho como tantos a alma inquieta, e tudo que ignoro é o que sinto. E tudo o que compreendo, meu coração não acolhe. 

Este coração, vítima fácil de tantas saudades, está aberto a coisas demais, está aberto a devaneios demais. Sim, às vezes, imagino a mão de uma namorada casual me levando por estes caminhos de agora, graves, despovoados. Alguém que, supostamente ou tolamente, pode trazer nos braços um resquício do que foi o mundo ou recolha minha vida em sua boca.

Aos poucos, tenho procurado abraçar a razão, apagar essas imagens adolescentes. Estou crescido, não é justificável colecionar pequenas amarguras, grandes epifanias que gênio nenhum escreveria. A genialidade é um princípio da loucura. Fernando Pessoa proclamou: “quanto mais nobre o gênio, menos nobre o destino”. Tenho medo do destino! Pode ser que a fortuna ou a fatalidade de um homem já esteja prevista, quem sabe um plano reserve minha sina. Como não sei onde ler meu acaso, posso começar um livro bem metidinho sobre meus dilemas, uns dirão, existenciais. Boa sorte!

Devo desviar meus caprichos de possíveis consolos, de possíveis ansiedades, de possíveis possibilidades sem hora. E esses pleonasmos, esses vícios improdutivamente queridos, o contrário de cada vício é uma virtude. E eu, o que tenho mais cativado? Cigarros, rancores, porres? Purezas, bondades e sobriedade? Nunca mais criei um neologismo, nunca mais encontrei um jeito de me encontrar. E os beijos furtivos que tanto me consolam, onde procurá-los? Bares, igrejas, boates, casas de amigos? Listo uma dezena de nomes no aparelho, todos parecem estrangeiros. Os amores não se cumprem na medida das procuras. Cada encontro é uma maneira de não se achar. Procuro, então, povoar ao menos a lembrança de alguma alegria. Alternativa vã de conquistar abrigo fora do presente. Desvendo, abatido, poucas esperanças em mim. Deveras nunca fui amado como queria, beijado como queria, feliz como queria. Na verdade, nunca fomos amados como queríamos. Bobagem crer que o passado seja a casa onde habitou nossa sorte. Criancice acreditar no amor como um troféu capaz de arrematar todos os nossos ideais.

René Descartes, em “As paixões da alma”, divide o amor segundo a estima que temos pela pessoa amada: quando estimamos a pessoa amada menos que a nós mesmos, temos por ela afeição; quando estimamos tanto quanto a nós mesmos, a amizade; quando a estima ultrapassa a nós mesmos, a devoção. Agora, como justificar a paixão que cega as afeições, rompe a amizade e chicoteia a devoção? Estremeções que abalam julgamentos, não se serenizam abaixo de nós nem se agigantam sobre nós, apenas engolem a nossa capacidade de ir embora, nos submetem a uma ausência de tudo. E toda falta se faz repleta de descobertas e esperanças. Outra vez quero escrever, muitas imagens compõem este cenário de fragmentos: a ternura física das palavras no papel, retinas mirando minha alma de verbo, dedos cativando páginas em que exprimo o suco pouco frutífero da solidão. 

Ligo a tevê, uma menina de uns 17 beija sofregamente um cara de 30 ou mais, essa amostra de amor recompensa minha ingenuidade. Não estou louco, ainda me emocionam as besteirinhas da juventude. Penso no cheiro dos cabelos da moça da televisão, só que os seios dela saltam para o foco e eu perco o sentimento poético. Pelo menos estou livre da filosofia, não há mais poesia na minha epiderme. Os seios na tela apagam a arte dos olhos, são durinhos demais pra rimarem com minhas retinas. Vontades não são rotas até o firmamento dos deleites. Prazeres inesperadamente cruzam nossa história como paisagens breves… Meninos são assim mesmo, vivem de angústias, cativam fantasmas, inventam  memórias e pornografias. Deixa pra lá todas as previsões, algumas esperanças só se assentam no passado. Droga, voltei à filosofia.

Muitos dirão que cativo a tristeza. Ingênuos, não conhecem as minhas penas, o quanto me esquivo, o quanto me acabrunho em todos os receios. Muitos dirão que estou demente, só que a demência não é a categoria primitiva da genialidade. A genialidade só é conseguida pelos que têm a alma inquieta. Mas os inquietos só entendem as leis do conhecimento, a literatura lamenta sua inocente inaptidão. Sou pouco brilhante nesta tarefa de pensar. Minha inquietude ainda sabe pouco do mundo. É preciso calibrar o peso das faltas, medir a gravidade dos fracassos, pôr a mesa no quintal e sorrir dos sonhos arruinados. É preciso, apesar de tantas ameaças, plantar pequenas promessas nesta terra infértil.

Quem sabe amanhã, embora persista a demora, mudemos esta ladainha triste. O corpo não tolera mais as invenções da alma. Bem-vinda, ignorância alheia! Adeus, inquietude amiga!

Imprecisões

2

Postado em Crônicas. Por Geovane Belo. Em 23 de maio de 2010.

Brindamos a despedida dos amantes, taças de cristal, goles de sangue e vinho seco. Tim-tim, até outra vida, amor. A aquarela dos dois destoou. O vice-versa dos sonhos não desenhou mais seus reflexos. Ácido nos olhos. Teus olhos fechados escondem paisagens divinais. Ardência na língua. Tua boca muda mastiga as guloseimas do mundo. Inchaços na carne. Tua mão fechada sepulta carícias, desperta a fastiosa ausência de qualquer coisa sem nome. Suores na pele. Teu cabelo preso aprisiona o vento.  

Fartos nos embebemos de nada. Nem a fome nos relega alimento. Os contrários não mais se alinham, o convite virou fuga. Fisicamente, o amor só admite a lógica do absurdo. Perdeu a astúcia, perdeu o discernimento. O sentimento mimoso digladia com a razão.

O espelho despencou da penteadeira, a moldura das recíprocas se partiu. As cores não pintam mais o quadro do dia. 

As crianças que trocaram confidências, hoje colecionam farpas.  No novo duelo, escamoteiam-se nas falas, nas praças, nas vaidades. Chegou o tempo de segredos sem partilha, entregas sem cânticos, desejos sem afeto, ritos sem nenhum mistério.

Na fronteira do engano, das decepções, das rixas conjugais, o parentesco se tornou alheio. Vontades cúmplices agora inimigas.  Religiosamente, o amor só sabe viver do que gerou a fé. Ficam os preceitos na hipótese e só os pecados ressuscitam. O silêncio pode ainda ser  decifrado sem o código dos olhares?

Sem mapa procuramos um tesouro. Há muito tempo, vasculhamos  cavernas, temíamos o breu.  Há muito tempo, flutuamos , temíamos o céu. Navegamos há décadas, não conhecíamos oceanos, não sabíamos nadar. Perdidos no mesmo canto, roubamos todos os sonhos e perdemos todas as esperanças.  

Palavras quietas, charadas, entrelinhas,   enigmas, coisinhas miúdas sobre a cama, parábolas sem evangelho.  Caminhamos até o lugar exato e não encontramos guarida, rotas mal sinalizadas, trajeto sem linha de chegada. Certas verdades só admitem o espanto. Certos dias, confessamos o calor da mentira. O mundo gira, roda gigante de rotações descomedidas, enfado e entusiasmo, coração em ritmo afetado, bilhete caro para vida.

Todas as demoras são batalhas, e todas as lutas entre  a esperança e a fantasia estão perdidas.  Quando a vida documenta suas partidas, intervalos de ausência se agigantam. Os corpos fuzilados pelo assombro rastejam. Minha pouca memória é inimiga de todas as minhas culpas. Avisto tédio em cada cansaço. Vejo castigo em todos os medos. Não compreendo imprecisões e palavras sem destino. Esvaziadas as lembranças, terei o tédio. Refeitos os planos, terei o futuro. Tudo me apavora, fotos debaixo do colchão, livros com dedicatórias graciosinhas. Do meu lado, o tempo ri da minha mente. Não há temas que cubram as teclas. E diante de tantas negações, todo nosso passado se tinge de tristeza.

Toda mãe é a sua mãe

10

Postado em Crônicas. Por Geovane Belo. Em 8 de maio de 2010.

Toda mãe tem uma forma de zelar, de cuidar, uma forma de ser tolerante, uma singularidade só sua. Toda mãe tem uma maneira de suportar dores sem ser pequena, um jeito exagerado de amar sem ser ridícula. Toda mãe se preocupa com coisas tolas como se fossem tragédias. Toda mãe reclama demais, consegue ser chata sem ser indiscreta. Tem um jeito de ter esperança em nome do filho. Toda mãe deseja que o filho seja alguma coisa que ela não foi. Toda mãe censura os amores do filho porque ninguém é bom suficiente para ele, a não ser ela mesma.

Toda mãe tem a sua lógica, o seu estilo de carinho, tem a sua maneira de dar bronca, de chorar sozinha. Toda mãe tem um jeito de fazer comida, de xingar o filho pela bagunça, de criticar a falta de modos, de mandar o filho pra igreja. Toda mãe se transforma quando sai em defesa do filho, vira mulher-maravilha, vira barraqueira, vira o que for preciso pra proteger seu menino.

Toda mãe sabe os defeitos do seu filho - que não são poucos - mas vê diante de si sempre uma criança que tem o direito de errar, às vezes ser punido, e depois perdoado, amparado no colo. Toda mãe também tem seus defeitos, sabe que passa da conta, mas odeia que os filhos apontem suas imperfeições, porque mãe tem sempre razão até quando não tem razão.

Toda mãe quer respeito, mas quer muito mais aquilo que quase nunca recebe do filho, quer conversar, quer o filho ao seu lado vendo tevê, quer presente sem data prevista, quer ouvir eu te amo mais de duas vezes ao ano, quer receber abraço não só em dia de festa, quer saber o segredo que o filho só compartilha com os amigos. Toda mãe quer que o filho ligue preocupado com a saúde da mamãezona porque também ela não é de ferro.

Toda mãe sofreu muito e quer proteger o filho, a todo custo, para não vê-lo cair nas mesmas dores. Por isso toda mãe erra, reclama, é meio ranzinza, gosta de santo, acredita em coisa do destino e vive falando que esse mundo anda  perdido. Toda mãe é igual, mas só a sua não deixa você passar a noite na internet, faz você comer sem ter fome, tomar remédio sem estar doente, deixa você magoado quando diz apenas a verdade. Isso acontece porque só a sua mãe é louca.

Só a sua mãe só dorme quando você chega em casa. Só a sua mãe gasta mais dinheiro com o filho do que consigo mesma. Só a sua mãe beija um marmanjo na testa e chama de meu bebê. Só a sua mãe liga desesperada depois de ter um pesadelo com você. Só a sua mãe deita depois de você e levanta antes para fazer café. Só a sua mãe não vê que você vai mal na escola, você bebe além da conta,  não se sente seguro na tomada de decisões. Só a sua mãe põe a culpa nos outros pelos seus defeitos, nas suas amizades, no seu professor, na sua namorada. Só a sua mãe aceita você como é, e mesmo com um monte de defeito não pensa em devolução. Só a sua mãe está grávida de você a vida inteira e reconhece a gravidade do dia-a-dia, teme por você, lamenta por você, sonha por você. Torna-se a mais forte, a mais guerreira e a mais sofrida das criaturas humanas. Se o filho morre, a mãe morre junto. Chico Buarque escreveu: ” Saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu”. Mãe é saudade, e se o filho partiu, ela nunca mais conseguirá ser feliz inteiramente, nunca mais, falta-lhe uma parte essencial. Só a sua mãe é capaz de morrer todo dia para que você viva melhor, cresça melhor, evolua, conquiste, se erga. Mãe é sinônimo de frases clichês: “Você vai ser o que na vida?”. “Eu faço tudo por você”. “Você é tudo que eu tenho”. Lindos clichês.

Só a sua mãe é feliz apenas quando você está feliz. Não tem vida desassociada da sua. Só a sua mãe consegue ser toda mãe porque todas tem um pouco da sua. Só a sua mãe é louca, doida de amor por você.  Consegue ser todas as mães de uma só vez  e não ser igual a nenhuma.

antipoesia

2

Postado em Poesias. Por Geovane Belo. Em 4 de maio de 2010.

minha poesia não tem certidão

veio sem estilo, sem atitude

veio porque veio

tiro no escuro

mosquito no ouvido

 

minha poesia

beijo sem afeto

palco sem aplauso

rito sem fé

 

minha poesia

filho sem registro

voz sem requinte

 

folha embolada no lixeiro

cachorro solto na praça

 

minha poesia

metáfora chula e desbocada

poesia pueril sem lugar no sofá

odeia recitais

odeia ismo de escola

odeia horóscopo

odeia poeta boçal

 

minha poesia

rima pobre, vista embaçada

verso branco no escuro

penúria culta

 

minha poesia

já disse: minha!

feita pra ninguém

feito de ninguém

poesia sem grupo 

desnível de moral

minha poesia sem padrinho

o professor não leva pra sala

a mãe não lê pra ninar o menino

não se enfia no livro embaixo do braço

 

minha poesia sozinha

viúva desamparada

menina virgem e feia

parto sem mãe, trepada sem pai

nasceu sozinha de si para ser de si

 

minha poesia minha

automóvel que não se move mais

confessionário sem perdão

divã que não escuta não aconselha

amor que não amola o coração,

minha poesia não emociona

não critica, não se vangloria

sobrevive de inglórias

sem editora sem menção honrosa

não rima coração e emoção

acha isso clichê

mas  tudo é clichê

minha poesia rima por acidente

rima por falta de opção

 

(poesia de fins escrotos!)

Numa única noite

7

Postado em Crônicas. Por Geovane Belo. Em 23 de abril de 2010.

Numa única noite, pintei teu cheiro nos meus poros e teu perfume empestou a minha carne. Colhi tua voz com as mãos. Enlacei-a firmemente entre os dedos e pus cada palavra em minha boca, assim teus ais se afogaram na minha saliva e o silêncio das horas foi desatado.

Para saciar meu vício, numa única noite, traguei teu corpo como um cigarro aceso. Bebi tua pele e deixei a língua varrer o teto dos teus cabelos eriçados. Encostei tua nuca nos meus pés. Teus pés nos meus ombros. Assim borrei a tonalidade dos teus desejos e despertei teus gritos até então camuflados.

Como quem decide ir além do corpo do tempo, além do espaço, numa única noite, ateei fogo nas cortinas da discrição e tirei o pecado do seu sono. Debatemo-nos nas paredes de vidro, embaçamos as transparências, espatifamos as moralidades e fincamos os pés nos estilhaços do breu, até o meu corpo conhecer o desatino de estar submerso em teus labirintos de sangue.

Numa única noite, mastiguei os gemidos, lambi o cheiro das lágrimas de delírio e, incendiado, morri infinitas vezes para depois reinflamar a vida nutrida debaixo dos lençóis. Colhi cada sonho disperso, fiz todos os pactos, desmistifiquei todos os segredos numa única noite.

De manhã, eu te trouxe numa bandeja maçãs bem vermelhas, iogurte com pão, um poema decorado e o dia numa xícara de café. Assim desjejuamos as sensações, risos desordenados e torradas com mel.

Depois, deitados um ao lado do outro. Entrelaçamos levemente os dedos e nos olhamos sem pressa no espelho do teto. Não fomos capazes de pensar nem sentir nada, apenas sorrimos aliviados. Foi aí que tudo tomou seu lugar no tempo, os minutos voltaram a correr no tempo dos minutos, o mundo lá fora voltou a ser mundo e tu retornaste, antes de mim, daquela única noite. Há ainda nos espaços aquele cheiro de nós, mas  o sabor do champanhe, a fotografia no espelho, o incêndio da carne, viraram resquícios denunciando o peso desumano de todas as despedidas. Nada, nada, nada concreto permaneceu… daquela única noite. Só as abstrações sem tempo que não permitem alegrias.

Desfeita a mesa, farto o corpo, veio a fome. E nem os restos desse amor ficaram para alimentar a ilusão.

verbamar

20

Postado em Poesias. Por Geovane Belo. Em 10 de abril de 2010.

amar no infinitivo
não se conjuga
verbo sem tempo
nem modo

no presente
a primeira pessoa
se confunde com
a segunda
e, às vezes,
uma terceira
pode atrapalhar
a conjugação do futuro

amar é um indicativo
de uma ação irregular do ser
admite a ativa ação
dos sujeitos
mas não funciona
com os agentes
na passiva

amar pode ser defectivo
no singular, faltar uma pessoa
pode até permitir risos e tônicas conjugações
amar não tem conjectura
funciona apenas quando
os dois formam uma locução
no plural

o pior é amar no subjuntivo
dúvidas, imprecisão…
amar no imperativo
regras, súplicas…

amar é verbo de emprego complexo
mas, se as desinências marcarem cada pessoa
E eu e tu coubermos na mesma oração,
o predicado da vida pode ter algum fundamento

obs.: verbamar é transitivo direto

Reflexões sobre o florir de uma primavera

15

Postado em Crônicas. Por Geovane Belo. Em 5 de abril de 2010.

Outra vez o amor veio cobrir meu pensamento com sua vestidura, nessa ocasião veio sem o pessimismo torrencial que comumente me desola, sem o aterramento total das fantasias. Assentou-se em mim com a tristeza clássica dos desencontros, próprios da vida e do afeto, e a ilusão esplêndida dos que amam no silêncio de seus corações. Um romantismo piegas, como os de XIX, veio zombar das minhas certezas.

O amor é a raiz de todas as virtudes e da verdade. O amor impalpável, que não se reveste do outro, só do sonho, e por isso atinge à perfeição. Foi Platão quem disse isso. Ele devia ser feio para crer nessa história de amor sem matéria. As meninas não deviam olhar para ele na escola. Quer dizer, as meninas não iam à escola. Os pensadores tinham que se contentar com seus discípulos mais jovens, corpinhos finos, vontade de aprender.

Sempre me pareceu infantil crer em platonismo amoroso como um atentado ao meu juízo. Mas hoje sem ter no que crer, um clima de afetação melodramático me levou a pensar em paixões inacessíveis. Quem sabe crer no amor sem nexo, seja melhor que não crer em nada. E, tendo apenas o nada para crer, estou apelando. Antes o amor que sobreviva às ideias que o amor desfalecido na carne, certo? Mentira! Eu ainda prefiro a carne mesmo. Amar em pensamento é meio improvável, não costuma ser muito lucrativo. Só um ama, enquanto o outro fica livrezinho para se entregar a quem quiser. Porém o desejo que só conhece as ideias não se arruína. Os que riscam a carne sim.

Pensei platonicamente, amores idealizados podem sobreviver ao tempo porque não se fragmentam nas insuficiências da carne, sobrevivem somente do que há de bom do outro, são perfeitos porque só se permitem conhecer o encantador, apaixonam-se pela formosura alheia. Como não atingem a matéria, não conhecem os erros, mantêm-se virgens, ilesos. A pessoa amada é, endeusadamente, a criatura sem deformidades. E como não amar quem só tem atributos?

Parei de pensar, e então, sem me prevenir, pousei os olhos inebriadamente numa frase de Fábio de Melo: “Uma vida inteira sem flores não é nada diante de uma primavera florida”. Refleti tentando agregar palavras incomunicáveis. Conclui que o tempo do amor é um arranjo de desencontros. Amar é a discordância experimentada entre os desejos da alma e os desatinos da história. Há amores que já nasceram inconcretizáveis e seguirão assim na parede das hipóteses, no porta-retrato do passado sem existência. A matéria deles é pano de céu, incapaz de cobrir a mesa das realidades dissolutas do presente. A frase foi extraída do conto “A primavera”, do livro Mulheres de Aço e de Flores. Recordei o tempo de flores que o amor me ofertou, lírios sem hora, cheiro bom de carinho, leve tessitura de palavras no ouvido, dias inteiros no ar. Recontei as estações de terra seca, noites sem a bonança do sono, palavras pontiagudas, promessas impiedosamente arremessadas na lama, boca sem rumor de beijos. E perdido nos cálculos inumeráveis da dor, o tempo se fechou na minha memória. Não sou bom para recompor alegrias. As desolações insistem em ocupar os espaços do riso.

“Primavera” fala de uma moça que se apaixona pelo jovem Alberto, humilde e um pouco rude. A jovem não podia levar a diante o amor. Fora prometida, por incumbência paterna, ao irmão mais velho do amado. O primeiro, o objeto de sua adoração, é frágil, roupa desalinhada, empreguinho de quinta. O outro, o prometido, é um advogado bem sucedido, robusto e requintado. O amor encontrou sua dissonância na escolha do pai, amor sem sabedoria. Por que não desejar o irmão mais velho de grandes qualidades? Por que apreciar o inapropriado? Disparate do coração! A impossibilidade ergue a parede do amor. O amor que fica é justamente aquele que não veio pra ficar. Pensei isso enquanto lia e enquanto olhava para dentro de mim naquelas páginas. Idealizar nem sempre é sinônimo de querer a melhor escolha diante dos olhos.

A maioria das pessoas nem sempre idealiza o mais perfeito, não se apetece pela matéria lapidada, quer o imperfeito inconquistável e começa a enxergar nele o ideal. Assim, o ideal se torna o inconveniente, o censurável. É o amor platônico ao avesso, feito da falta de bom senso. Cheira a modernidade, próprio do desejo juvenil de transgredir. Nele, ama-se o ilógico, ama-se justamente a loucura, o desprezo, a falta de modos, o inconfiável, o sofredor. Ama-se a pessoa sem merecimento. A falta de juízo estimula vontades ocultas, entusiasma, tira do poço desejos proibidos. Quem ama assim facilmente perde a rota. Não encontra motivo para o cumprimento de normas, o coração está desorientado e não acolhe conselhos ou cabeçalhos. Todos temos ou tivemos uma dose desse delírio, quisemos exaustivamente o contrário do devido, ao invés da força a fraqueza, ao invés da educação a falta de modos, ao invés da beleza o estranhíssimo, ao invés da riqueza a miséria, ao invés do inteligente o patético, ao invés do amor correspondido o desprezado. Existem muitos motivos para sepultar um amor desses, mas eis que o sentimento sobrevive à inadequação, atinge o desalinho do exagero, o embaraço do vexame, a inércia da covardia. O amor sobrevive dos defeitos e alcança a beleza da impossibilidade, o que o torna ainda mais extraordinário e inconcebível.

A moça da história ama o adverso, seu coração escolhe o irmão errado. Entretanto, a falta de coragem é inimiga das verdades do amor. Ela se casa como combinado e o amor de sua vida parte para sempre. A vida passa amargamente, vassala do destino, morna, sem risos na casa de um casamento sem o piso do amor. Depois de anos, nenhuma notícia do amado. Um dia o destino teima em surpreender, Alberto é trazido de volta, tuberculoso, para morrer ao lado do irmão mais velho e dela.  O amor impossível prova novamente o gosto da companhia, agora bem mais velhos e ambos consumidos pelo longo intervalo das ausências. Não ousam concretizar aquilo que o medo aniquilou, o amor não conhece a carne, não quer o resgate do passado perdido, apenas acolhe a possibilidade de uma estação. Próximos um do outro, não há mágoas, há somente a primavera do carinho, do respeito e a magia do sonho adormecido no tempo. Compartilham na beleza da estação conversas brandas na sala, entregas embebidas de palavra e serenidade. O cuidado da doença os aproxima no pôr do sol da vida. A moça conhece a felicidade trazida para se decompor ao seu lado, o sentimento imaterial os une pra sempre, como se o amor pudesse anular a morte e petrificar o tempo.

A história é comovente, talvez não se pareça com a biografia de ninguém, porém revela a tristeza habitual dos amores que se eternizam na interrupção das jornadas. “Uma vida inteira que poderia ter sido e que não foi”, como Bandeira afirma. Alguns recebem uma nova chance de se olhar, de lavar a roupa suja. Tarde demais, impossível voltar à estação. Na despedida de Alberto, existe a declaração de quem morre feliz, de quem reconhece a dor, mas não vê relevância nela porque o tempo foi ingrato demais e se não foi possível cultivar flores durante toda a vida, as que floriram num entardecer podem enfeitar a despedida. Esse amor é capaz de se realizar com uma única primavera, de perdoar o imperdoável: “Uma vida inteira sem flores não é nada diante de uma primavera florida”.

Uma vida inteira ao lado da pessoa amada pode ser um abuso. O homem da sua vida, a mulher da sua vida pode não chegar. Pode nunca cruzar seu caminho, faltar coragem, namorar sua amiga, não ter tido a chance da aproximação.

 Uma primavera não pode durar toda uma vida. Talvez a nossa já tenha florido. Só o tempo dirá.

A menina e o menino

7

Postado em Crônicas. Por Geovane Belo. Em 29 de março de 2010.

A menina tão doce não quer mais sentir o sabor de minha palavra. Não suporta minhas verdades amargas, espera que eu pare de esmagar minha aflição sobre seus olhos. Ela sempre sonhou com um mundo sem dor. Lia contos de fada, brincava com boneca de pano. Quando tinha sonho feio, ia pra cama da mamãe pedir consolo e reencontrava o sono. A menina adolesceu, mas não deixou o tempo apagar o aspecto de menina, o riso-menina, os olhos acanhados de menininha. Essa bela menina, por vezes, sonha com príncipe encantado, nuvenzinhas de algodão e rios de chocolate. Só sonha mesmo. O presente é menos fabuloso, a vida, menos fantástica. E a menina coleciona medos. Tem demais medo do escuro, horror a sangue, pânico de barata, e nutre um pavor incontrolado dos pesadelos de minha alma.

Uma vez, abusei de sua ingenuidade. Pus um texto amargo num papel de bombom,  embrulhadinho, bem disfarçado, e ofertei a ela amorosamente. A menina provou, fez careta e chorou. Minha palavra se fez lágrima pequenina despencando dos olhos adocicados dela. O sal e o açúcar se encontraram musicalmente. Foi a primeira vez que ela provou minha dor.

A menina de vestido rosa e de voz delicada quis repelir o sabor da minha palavra. Tentou cuspir, escovar bem os dentes. Não teve jeito, intrigada, precisou provar de novo. Irritou-se comigo, disse: “Pare! Pare! Não quero mais te sentir!” Mas o azedume continuou em sua boca, duradouro e inquietante. Foi a segunda vez que ela provou minha dor.

Todo mundo sabe, eu já sou gente grande. Aprendi a sofrer e a curar  grandes alegrias com pequenas angústias. A aflição é medicamento exato para sarar as fantasias. Dor não é doença, é antídoto para remediar ilusões. Isso desconcerta a menina que, sem assumir, sonha com a mágica cena “e-foram-felizes-para-sempre”. Ela vive, no vazio de seu silêncio, a fantasia do amor no sonho da espera. Mas eu escuto o que ela não declara. Rio de seus devaneios, é que meu espelho-espelho-meu veio com detector de mentiras. A menina é criança e não conhece o mundo. E eu, às vezes, pareço conhecer.

E então ela me lê, me decifra, gira no meu mundo de conhecimentos vastos, devastados,  um tanto devassos também… Graciosamente, embala minha tristeza em seus braços, nova boneca sem o papo da inocência. Seus olhos parecem convidados a conhecerem minha alma.  Quer me salvar, devota do meu espírito mendigo. A menina tem muito carinho guardado em sua caixinha de brinquedo. Eu sou triste e a tristeza encanta quem tem consolo de sobra no peito. Mas não, não pode, não quer mais me sentir. Suplica que eu tranque minha alma. Tem medo do fascínio que a minha dor desenha na sua dor sem nome. Passa, inconscientemente, a saborear meu sofrimento e a passear a língua em torno dos lábios. Tenta resistir, nega o paladar. Teme a força de minhas balas sem doçura, caramelos de palavra sem sabor apreciável, guloseima que é glicose sofrida.

A dor, só a dor justifica o amor, rima pobre de substantivos inexatos. E a dor é justamente a senha do amor, eu digo. Ela acredita. O amor precisa decifração, é código revelado no corpo que não suporta o peso da alma. Minha dor é a senha amarga na boca da menina. Seus olhos, atraídos por minha alma inquieta, tem medo de me olhar. A menina terna teme enxergar no meu dissabor o seu gosto predileto. Compreende que minha angústia é distração em suas mãos como um balão grande e frágil nas mãos de uma criança.

Não sei sobre o que escrevo. E escrevo. A menina se encanta. É longo o silêncio sobre minhas esperanças. É curto o espaços entre meus medos. A menina entende cada palavra acre. Ela me olha de novo, e não sabe se é amor ou espanto o que sente. Vê meu coração afoito que não sabe onde pôr os pés, bisbilhota o meu desconhecimento do mundo e meu jeito de distorcer o retrato de tudo.

Não sei o que compor para resgatar a vida de seus naufrágios sem mar (minha dúvida desola a menina). Esta voz antiga não encontra mais guarida nestes breves intervalos de ausência (minha solidão repousa na mente da menina). O presente é estar pela rua, sem o tempo dos risos em festa (minha desolação é o rumo dos olhos da menina). Todo presente é  fronteira temerosa, cambaleamos nos passos, e a fome dos afetos se ata ao corpo, pedinte de carinho (meus medos encorajam a menina a me levar no colo). Saberei entender-me depois que passar este tempo sem banquetes, este tempo de comer pouco e ser forte, de canções tristes e alegrias acidentais (minha esperança quase nua veste a menina de emoções).

A menina tem medo dos meus medos. Tem medo do tempo. A menina faz poesia da minha amargura. Não separa mais a sua doçura do meu gosto travoso. Pensa meus pensamentos. A menina diz que o tempo é o defensor da morte. Eu nego. O tempo é o adversário da morte, menina.  A vida é que nos assassina sem qualquer misericórdia. Ela concorda.

Falamos mais sobre o tempo. Amanhã é sempre a casa de uma verdade desconhecida, vasta, luminosa e inconsciente. O futuro é o ingresso para uma corrente de espetáculos inéditos. O passado não admite esta viagem de idas e voltas. O passado não quer mais passear pelos corredores do presente,  intruso sem qualquer educação.  A correnteza líquida das minhas ideias deságua nos desejos líquidos da menina.

O mundo agora pesa sobre minha juventude. O tempo me leva. Desconheço o caminho. Não vejo o tempo e o tempo me afronta.  Há palavras solitárias dentro de mim. Minha solidão é verbo inconjugável, singularizado, verbo-substantivo em primeira pessoa. A menina sabe que escrevo confuso e adora o labirinto das minhas palavras.

Uma coisa ninguém sabe, eu não cresci, sou o passado das minhas esperanças eternas. Não posso ser condenado por brincar feito menino, criança com os dedos sujos de palavra na boca. Peço perdão à menina pela falta de palavras doces, pela bala alojada em seu peito.  Não queria matar sua doçura com o revólver de plástico do meu sofrimento.  

                                                                       Para Isabela Feitosa

Esta esposa inseparável

7

Postado em Crônicas. Por Geovane Belo. Em 21 de março de 2010.

Gosto da solidão. Isso mesmo, debatam-se aí do outro lado da tela. Proclamem-me mentiroso, considerem-me um ardiloso fingido, descaradamente cínico (eu, cínico?). Fiquem à vontade. Mas, eis o que professo: a solidão é minha amiga. Mora na minha casa. Está na sala de aula comigo explicando o Português, come comigo na frente da tevê, navega na internet, deita-se exausta comigo após estes dias indigestos. Vez ou outra, delicada, cola sua face feminina em meu peito e me ama.

Admita isso, estamos sozinhos no mundo, surgimos e morreremos sozinhos no mundo. Juro que não fui eu quem disse isso. É uma verdade batida. Você sabe do que estou falando. Não me venha com essa de que, com você, é diferente, tem muitos amigos, um namoradinho bacana, uma família linda. Todos estamos sozinhos. E os outros não têm culpa desta fissura no peito. Vá a um terapeuta, ele chamará isso de existencialismo. Citará Sartre, você nem deve conhecer esse cara. O doutor (você está pagando pra isso), em sua soberania, menciona: “Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você”. Genial! Aplausos pro… Como é o nome dele mesmo, doutor? “Jean-Paul Sartre”. Você vai esquecer o nome quando sair de lá.

O que importa não é a solidão que carregamos, mas o que fazemos com ela. É próprio do homem o desejo de encontrar uma lógica para sua existência (existencialismo, entendeu, agora?). Se estamos vivos, queremos uma justificativa a mais, na escola, nas tarefas, nas festas, na família, no amor. Esquadrinhamos uma conciliação com nossa própria alma. Chico Buarque acertou nessa: “Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pela nossa alma”. Leia de novo, saboreie cada palavra. Onde está sua alma? Para onde a levaram? Não, meu caro, você a perdeu. Como quem perde os óculos, a carteira, o celular e transfere a culpa a alguém. Nós, numa procura consciente de ideais, perdemos nossa essência. Agora, a procuramos, tresloucados. Queremos uma lógica excepcional para existir, queremos achar o tesouro intitulado e-foram-felizes-para-sempre.

Ufa! E o outro? Onde fica a pessoa amada, que, aqui comigo, toma sorvete, troca carícias e vai ao cinema? Não é o outro esse tesouro? O outro, tadinho, não tem culpa. Solidão não significa estar sem alguém, significa estar sem o que procura nesse alguém, sem aquilo que procura no mundo. E pior, você pensa saber o que procura. Mas não sabe, acredite. Você procura por você sem saber onde encontrar. É no meio da aglomeração que a solidão se agiganta, as emoções são precárias, as trocas afetivas mais rudimentares. É na agitação dos beijos embriagados, furtivos e passageiros que a tempestade das faltas desaba. Drummond, esse você conhece pelo menos de nome, legislou: “Por muito tempo achei que a ausência é falta./ E lastimava, ignorante, a falta./ Hoje não a lastimo./ Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim”. Exige meditação. Podia ser um sermão de missa. A solidão é ausência, não significa necessariamente falta, depressão. É momento de crescimento individual. Na solidão bem administrada, encontramos a nós mesmos, é a solidão amiga. Quem não a conhece lastima, debate-se insone. Quem a descobre engrandece sua própria alma. Nesses momentos de crise, você precisa de si mesmo, tem de aprender a se apaixonar pela solidão, provar cada angústia e transformá-la em arte, abraçar o vazio ao seu lado e sentir-se amparado pela ausência que não mais é falta. Parece complicado tirar proveito da ausência, mas a solidão que nos ergue e nos arrasa injeta doses diárias de realidade e nos põe longe dessas previsões românticas da vida, tolas e transitórias.

Clarisse Lispector foi uma grande poeta e sabia, a solidão não precisa ser temida, está dentro de nós: “Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite”.Repare, o outro, os acontecimentos podem ser as chuvas tempestivas, as ventanias soltas, e trarão as tormentas. A falta do outro pode ser qualquer um desses perigos de fora que nos atingem, mas é dentro que se avoluma a noite. Para quê temer? O outro é muito importante para a convivência, mas sozinho não preenche a vida, não pode dar sentido a outra existência. O outro nos dá aquilo que não temos sozinhos, todavia jamais nos dará tudo. E, se o fizer, ficará seco. O outro não é a essência capaz de pôr fim à solidão. A solidão não pode ser exterminada, é preciso conviver com ela, ouvir suas queixas, dialogar com ela. “As pessoas ficam procurando o amor como solução para todos os seus problemas quando, na realidade, o amor é a recompensa por você ter resolvido os seus problemas”. Norman Mailer. Leia o parágrafo de novo.

É necessário caminhar sozinho sem se sentir cuspido pelo mundo, sem se sentir um pé-frio, azarado no amor, não-compreendido, renegado, pavoroso. Não estou mentindo, antes odiava a solidão. Tentei me separar, fui traído por ela. Foi inútil. Aprendi então a gostar dela. A solidão deixou de ser minha amiga, é minha mulher. Temos um relacionamento estável, trocamos confidências, brigamos feio às vezes. No final, ela me tolera, eu entendo seu silêncio, sua rigidez e, depois das turbulências cotidianas, deitamos na mesma cama e fazemos amor. Tenho sorte por tê-la comigo.  Arthur Schopenhauer, (duvido você soletrar), disse: “A solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais”.  Ao lado da solidão, esta esposa inseparável, eu me sinto assim, um cara especial.