O Autor
Deram-me um nome Belo numa noite em que eu não existia. Puseram os corpos sobre o cálice e repartiram o pão dos prazeres num espetáculo comovente. Depois me lançaram fora, para ser isso: um fiasco de ilusão. Não tenho livros na estante que falam de mim, não se aproximam de mim os amigos mais próximos. As meninas de cera que se dissolvem em meu corpo não o conhecem. Minhas hipóteses serão sempre meras hipóteses, furtivas e débeis.
Estou farto deste imenso nada, das máscaras necessárias, desta febre de desapego e mágoa, estou farto de vastas idealizações sobre meu destino, de ter de escrever lamentações para parecer sólido, soberbo ou burocraticamente inteligente. Tenho pouca idade e uma velhice centenária intimamente corrosiva na carne. Amanheci entre os cigarros e o cheiro acre da vida. Mas não despertei das desilusões de menino, porque ainda sofro sobre o teclado as amarguras desta gente inteira. Estou cansado, tísico, sinto saudades do meu futuro utópico, tão crente era seu retrato formidável e hoje, fragmentado, é pó que o vento leva, pedaços de um coração devastado, vestígios, um resto, só…
…meus pensamentos rompem meu crânio.
Eu, homem fortemente fragilizado, um emaranhado de tumulto e quietação. Eu, tolamente munido de uma verdade pouco convencional que clarifica, desola, embaraça, desarranja e concilia. Eu, às vezes, incompreendido, por ferir, blasfemar e titubear cenários. Eu, que certifico coisas sem as cercanias da reputação, sem ostentar moralidades. Eu, paradoxalmente, recatado e extravagante, burguês e miserável, juvenil e encanecido, que afirmo com precisão o que desconheço e sinto dificuldade de dizer o que já sei. Eu, Geo - terra -, Vane - ir. Geovane, ir a terra, desbravá-la, escavacar angústias cotidianas, ironizar as revelações profundas de coisa nenhuma. Eu, o autor Geovane Belo que não autoriza. Eu encontro-me confuso, perco-me inesgotável neste blecaute de ideias absurdas e opacas.
Preciso de uma confissão de amor, de qualquer afeto acriançado, de um alento ingênuo para minha vaidade infantil. Amor, diga que me ama, que minha rudeza é sábia, que minha escrita é magistral. Minta verdades ao meu ouvido poético, me encha de mimos e esquente meu ninho de carências antigas. Não! Não vá embora, amor. Sei que sou fragilmente escandaloso, que minha maturidade é criança sobre os cuidados tolos da mãe. Diga apenas que me quer, jure sinceridade e durma amorosamente com os meus pensamentos mais sórdidos. Se não puder, amor, vá pro inferno. Isso mesmo, amozinho, vá pro inferno. Como Pessoa disse, vá sim e sozinha, por que havemos de ir juntos pro inferno, amor?
Não peço desculpas. Minha educação é intelectuamente burguesa e falseada. Lembro que um dia me disseram “respeite o leitor”. Ora, ele que se dê o respeito e me deixe em paz , ou melhor, me deixe neste breu de conceitos precários e impressões dissimuladas! Se leu até aqui, é louco, doido varrido. Por que diabos eu haveria de respeitar alguém que é pirado como eu. Um escritor é feito do que rouba dos outros. Um escritor é feito de um olhar catiteiro, de dedos que, vez ou outra, se metem onde não são chamados. Escrevo o cotidiano. Cato, vasculho, rabisco, confabulo. Só me dou por satisfeito quando minha insatisfação satisfaz os outros. Quando sou querido, apetecido ou vomitado. Se não me têm amor, que me execrem de coração verdadeiro. Um escritor é realizado no momento em que constrói inimigos verídicos, alguns corretos, outros torpes. Concorde comigo. Durma comigo. Pense comigo. Ou faça o favor de dizer ao mundo o quanto sou abominável, assim me sentirei literariamente recompensado.
É notável, preciso pôr fim nesta mania de escrever, porque contraditoriamente revelo que sou diminuto, menininho sem pai… Depois cresço, precocemente neste abismo, puberdade vulcânica, e adulto despenco neste buraco de linhas e argumentos. Afundo no que penso, texto movediço. Não tenho controle sobre minha mente. Divago. Torno-me devasso nas confissões mais dóceis sobre mim. Chega disso tudo! Despido me visto do mundo!






