Postado em Crônicas. Por Geovane Belo. Em 23 de julho de 2010.
O fim de uma fase é uma prova de fogo. Coloca-nos diante da tragédia da vida: passar todo o tempo tecendo elos duradouros, depois ter de desfazê-los um a um, linha por linha, árdua tarefa de destranças laços.
Quem termina um relacionamento tem de enfrentar uma espécie de morte de si mesmo, até mesmo porque dificilmente, para ambos, o fim coincide com o término do sentimento. A maioria dos casais rompe numa época em que, pelo menos um, ainda se nutre do amor. Laços afetivos, quando podados antes do tempo previsto, costumam deixar marcas quase incicatrizáveis. Uma coisa é você viver com alguém até o último suspiro da dependência, até o amor dar tudo o que podia de si, outra é você deixá-lo partir quando o coração ainda não desteceu os bordados da paixão.
Dói ver as cenas do desenlace, dividir o cenário, o mesmo que compôs uma história e ter de fragmentá-lo, reparti-lo. Decidir o que fica com cada, quem leva presentes, filmes, objetos simbólicos, livros, algumas cartas, coisas secretas. A pessoa que vai não vai desacompanhada, leva sem nossa licença um modo de sorrir que a gente tinha, leva nossas manias, nossos chiliques repentinos, carinhos compartilhados, grandes confidências reveladas, malícias a dois, leva muito da nossa segurança, das fantasias, leva os álbuns de viagens e as discussões sem nexo…
Dói não participar mais dos hábitos, mudar a rotina, o papo no sofá, a conversa íntima sobre qualquer coisa, as preocupações durante o café, dói arquivar as esperanças e reconstruir os afetos. Dói sair pela porta da frente, entrada de todos os dias, lugar do bom dia e da despedida carinhosa das noites cotidianas. Dói saber que outro ocupará o seu espaço, haverá novas entregas, novas coisinhas miúdas para compor o quadro tão largo da sua falta. Dói saber que, depois de um tempo, você não será mais falta, talvez retrato de uma lembrança num passado irrecuperável. Dói o celular mudo, fazer as coisas de antes sem o olhar cauteloso, sem o cuidado e as regrinhas próprias do amor. O seu amor não pode mais ser chamado de seu, perdido o domínio, não há mais controle algum sobre as rotinas. O nome na agenda foi reeditado, perdeu o destaque e o encanto.
Dói saber que o desfecho é o prenúncio de que a vida segue assim mesmo, e a felicidade não é uma questão de pessoa, e sim de tempo. O outro terá tarefas a cumprir e, mesmo sem sua ajuda, cumprirá todos os ofícios que lhe cabem. Haverá o tempo do esquecimento. A pessoa amada, na distância, deixará o vazio dos afagos, e a mente se cumprirá de preenchê-lo novamente. E tudo será intenso como foi ao seu lado porque só nos permitimos amar no presente. Até quando não acatamos o elo perdido, não vivemos presos ao passado, é o presente que ainda revoga a vida de antes, o passado ainda reveste o hoje. Dói compreender que nossa existência repele a solidão e o outro não pode sofrer ininterruptamente nossa ausência. Quem você amou aprenderá a amar alguém, e sofrerá pelas mesmas miudezas, e será de outra pessoa como foi só seu. Ninguém nos pertence e a partida documenta a perda, aciona o recomeço.
Dói, dói mesmo. Mas depois a dor é serenizada, não é mais dor, é restauração. Temos de então vencer, acima de tudo, o egoísmo, dar espaço para aquele a quem quisemos tão bem se erguer, precisamos aniquilar a convicção de que só nós podíamos fazê-lo feliz. Temos de amadurecer, possibilitar a distância necessária para as angústias silenciarem, e que a felicidade possa novamente adentrar as casas divididas. A felicidade do outro não pode nos incomodar, não pode interferir na nossa nova jornada. Não devemos ter a pretensão de permanecer no outro, partir e deixá-lo deficiente, tristeza sem remédio, querer que o outro continue nos amando para alimentar nosso ego.
Na verdade, estamos sempre partindo, sempre desintegrando nossa matéria nas passagens do tempo. Amores partem porque “navegar é preciso”, e partidas são feitas de lamentação e saudade, fica algo nosso em cada porto, dor abstrata de se despedaçar e recompor-se em cada viagem. A pessoa que fica no cais, dali em diante também seguirá, mas por outra rota, novos mares, outras vistas, novas companhias, novas experiências, novas ilusões. Poderá olhar o passado e achar que foi feliz, mas procurará no hoje o território das flores.
A vida segue seu ciclo, o mundo gira em torno de nossos corpos suspensos, gira por meio das escolhas que conduzem o destino, conspira para enlaces e desenlaces, muitos injustificáveis, e precisamos de pés e de coragem para recriar a vida, senti-la neste instante e bordar em seu pano uma composição de amanhã muito mais belo.







Geoo, realmente quando pensaste que esse eu ia gostar, acertaste em cheio. Adoreiii, muito verdadeiro. =)
Muito bom,muito mesmo….
Como a Alessandra disse bem verdadeiro.
Aê Geovane,mais um belo texto!! Sempre cheio de detalhes que conseguem tocar bem no fundo de quem ler!!
Muito bom! Belo!
perfeitoooooooo!
simplismente verdadeiro cada palavrinhaaa…
adorei!
lindo lindo lindo lindo….
auhauhauhauh
olha tá muito legal(como sempre né!!)!!
continue assim belo!!!
bjss
lindo,profundo e verdadeiro,adorei….parabéns mano pelas lindas palavras e pela sua inteligência e capacidade de fazer tudo muito perfeito…lindo texto amei.
noooossa esse toca realmente quem está lendo!
ameei muito…
você é bom no que faz sucesso , sempre!
obrigado
Parabéns Professor, lindo texto!
Realmente tocante.
Então, amigo Geovane, acabei vindo antes de amanhã. rs. Muito bacana o texto, suas considerações muito apropriadas, fora a poesia que você derrama nas palavras. Bem, a postagem foi em um dia especial pra mim e você sabe que, na minha vida, o clima era bem esse. Ainda bem que já estou com os pincéis nas mãos, tentando fazer mais plena de beleza a tela do amanhã! Abração.
Borraremos de uma tinta sempre nova o cenário do amanhã, Vital, talvez as pinceladas sejam mais firmes e o desenho bem mais bonito. Obrigado.
Rapaz o sr. tá apaixonado mesmo kkkkkkk’. Parabéns professor um belo texto, muito bom mesmo !