Postado em Crônicas. Por Geovane Belo. Em 16 de julho de 2010.
Pus o coração de férias por algumas obviedades. Primeiro pelo cansaço e fadiga decorrentes do trabalho constante. Depois, o repouso era justificável pelo fato de a máquina humana não funcionar mais a todo vapor, necessitando de reparos, cobertura mais resistente. As precipitações e solavancos deterioram parte de sua estrutura e só a revitalização podia amenizar os desgastes do tempo, do mau uso, principalmente pelo mau uso e pela sobrecarga no trato com um instrumento tão delicado.
Pus o coração de férias. Ele que é, além de máquina, trabalhador rude e pouco instruído resistiu. Queria permanecer na labuta diária em busca de pão. Não acreditava em férias remuneradas. Como sobreviver sem cumprir as árduas tarefas, sem se debater no cumprimento dos ofícios? Foi obrigado a deixar a repartição, arquivar muitos papéis, transferir alguns afazeres para outros funcionários.
Pus o coração de férias. Obriguei-o a buscar um lugar fora da cidade. Distante das perturbações e agitações urbanas, bem longe das pessoas apressadas se acotovelando no centro. Podia escolher paisagens relaxantes, um casebre em Algodoal frente à Princesa do mar. O coração estava com estresse elevado, um pouco depressivo, demonstrando cansaço progressivo, falta de ânimo e baixa concentração. Podia se refugiar num sitiozinho no interior, restituir a paz dos tempos em que não havia tantas obrigações, tensões, tanta balburdia pra sobreviver aos desígnios do amor.
Pus o coração de férias. Uma alternativa seria um pouco de diversão. Praia, muito sol, embriaguez, mulheres seminuas, música bem alta. Quem sabe o calor de beijos sem compromisso descarregasse um pouco do enfado de viver. O coração podia se aventurar em paixões mais efêmeras, pequenos ensaios de ilusão, capazes de fazê-lo esquecer as intermitências daquele amor grandioso necessário para a manutenção da vida. Aquele que virou obrigatoriedade ou se transformou em tédio ou se converteu em desgastante espera.
Pus o coração de férias. Tive medo de uma pane total do aparelho de palpitação, de um defeito no regulador da alma. Tive receio da morte total advinda da fraqueza, da pusilanimidade do amor. Não sei por quanto tempo devo mantê-lo afastado das obrigatoriedades, das resoluções inescapáveis. O coração saiu porta afora, trôpego, sem rumo como menino expulso de casa. Fará bem a ele essa folga para se recompor. Pus o coração de férias para salvá-lo, para não perder a serventia. Pus o coração de férias para esquecer quem sou.







Parabéns Belo, de pequenas palavras tu conseguiste desenvolver um belo texto belo.
Muito bom, admiro!
beijos.
è uma boa alternativa!!!! Boas férias!!!
bjs bella
Lindo texto! Belo como sempre escreve super bem ! Boas férias [2] =p