Postado em Crônicas. Por Geovane Belo. Em 9 de julho de 2010.
Muitos perderam bem mais que uma copa, perderam a ilusão de que a vida era isso: um palco de chuteiras mágicas tocando nosso coraçãozinho besta. Perdemos a ilusão de que não havia mais problemas nem trabalho, nem fome. Nós tínhamos tudo e tudo nos era permitido, éramos como gladiadores do mundo moderno, não importava o lugar que estivéssemos: nos bares, nas ruas, nos grandes edifícios, na roça, nas favelas. Tínhamos o mesmo valor e poder, por toda parte. Éramos armas imbatíveis de bandeira na mão e de chuteiras em sonho. Tudo por que havíamos esquecidos de que a vida é essa coisa que ficou agora.
Vi homens de verdade aos prantos, uma nação em desalento… Todos haviam esquecido de tudo pra sonhar com a maior conquista das nossas vidas: uma estatueta de ouro na África do Sul. Mas, poxa, isso nos tornaria ainda mais perfeitos, deixaria nossa vida de meninos pobres mais feliz, fortaleceria nossa alma cheia de marcas existenciais… Mas que pena, mas que droga! Estamos acabados, e a derrota na copa parece pior que a de toda a nossa história, pior que a seca, que as mortes por terra, que a prostituição, que as dezenas de casos de corrupção, pior ainda que as chacinas, os assassinatos midiáticos. Talvez ocorram dezenas de rebeliões agora, os presos exigiram ver a copa em telas planas, mas, neste instante, devem achar que seria melhor ter pedido alguma bolsa nova pro Lula, uma visitinha da Gisele Bianchi, tudo seria melhor que esse joguinho f…, o time amarelou, melhor, alaranjou.
Eu, também decepcionado, desolado, como tantos outros, não posso esconder a minha lástima e desgosto. Mas o mais lamentável é estar assim comigo mesmo, por ter caído na real e ter de ver o mundo como ele é: sem dinheiro no banco, sem mulher e sem nenhuma pena revigorante, nenhuma hipótese bem projetada de desejo.
Alguns até estão dizendo: “nós deixamos mesmo eles vencerem, nós não podemos ganhar sempre”. Mas, na verdade, nós acreditávamos que podíamos sim, a derrota não foi feita para nós. Essa taça era nossa, o céu dizia isso, o polvo, os búzios, as bolas de cristal e principalmente a voz rouca e ‘globalizada’ na tevê. Meu Deus, essa conquista faria com que nos sentíssemos insuperáveis, intransponíveis; os outros seriam bichinhos afoitos lambendo nossos pés de estrela.
Contudo, o fim precoce dessa grande quimera diante da galáxia inteira, que se borrava de medo da gente, levou-me ao maior dos desenganos, levou-me a certeza de que toda uma nação e eu sofremos mais por uma derrota na copa do que poderíamos sofrer por toda uma vida sem dignidade, sem justiça e sem amor. Nós, há alguns dias, éramos nacionalistas, dormíamos com a bandeira, pintávamos a cara, enfeitávamos as ruas, as casas, assoprávamos as vuvuzelas. Agora, o que resta é revolta, é esquecer e voltar à luta pela sobrevivência. Talvez, daqui a quatro anos na nossa casa, nós consigamos de volta a supremacia futebolística, isso se estivermos inteiros até lá, os estádios saírem do papel e próximo técnico levar o Ganso, o Pato e todo o resto do galinheiro.







[risos]
Esse final foi ótimo…
acabou-se mesmo o único sonho que faz os brasileiros esquecer de todos os problemas…
Se passarmos de 2012, que venha 2014
haha-