Textinho pra Ela

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Postado em Crônicas. Por Geovane Belo. Em 20 de junho de 2010.

Preciso de um texto limpo e bonito. Nada de amarguras, faltas acumuladas, sombras, embriaguez. Hoje preciso de um texto inocência, beijo na bochecha, um texto amor de criança. Quero-o agora alegremente pulando dos meus dedos, escorregando no tobogã da palavra. No corpo nenhuma melancolia, nenhum desassossego, nenhum pesadelo adulto. Preciso controlar hoje a tristeza íntima da literatura. Preciso e quero ver desaguando de mim um texto rio, texto cachoeira, lágrima de sorriso, escrito molhado, H2O romântico.

Preciso de uma voz líquida, sem as duras angústias, preciso trazer a natureza para compor minha palavra, diminuir os adjetivos, serenizar o vento, subir nos muros, abrir os braços, trepar nos galhos altos, colher as goiabas,  correr debaixo de chuva e tomar banho nas biqueiras.  Meu texto vai proclamar os olhos, a mão e o cabelo cheiroso que Ela tinha, o único papagaio que foi meu, o primeiro cachorro, o são Jorge preso na lua, a estrela Dalva cintilando em algum lugar lá em cima, falar como doía gostoso ficar à espera dEla, o que sentia ao lado da Minha Menina. Meu texto vai sentar suado na calçada, brincar pira, chupar manga com sal, jogar bola no terreiro, se esconder pra não banhar cedo. Vai mostrar como era tudo de lindo o sorrisinho dEla, a mania que Ela tinha de crescer e me deixar pra trás. Meu texto vai falar de boca cheia, e não vai esquecer o feijão preto, o bolo de macaxeira; e Ela, à mesa, mastigando ao meu lado os minutos, os quitutes, rindo alto com cara de gente grande. 

Meu texto vai pra dentro de mim, vai procurar onde Minha Menina foi parar com aquele jeito engraçado de chegar comigo e me chamar de Seu Besta. “Não chora, Seu Besta”.  “Já vou, Seu Besta”. Era gostoso demais ser o Seu Besta da Minha Menina, com letra maiúscula na frente, amar como Seu Besta e não pensar que o amor era uma droga de besteira. Preciso de um texto lindo. Preciso de um texto perfume, um texto flor, um texto margarida, um texto néctar, um texto beija-flor, um texto abelha, um texto mel, um texto dedo e língua no mel. Meu texto vai longe, vai recolher o passado e colocá-lo aqui no papel, vai guardar a seriedade paterna, o papo sobre nada com os amigos, a vontade de falar inglês, os cânticos da igreja. Meu texto vai glorificar os desenhos nas nuvens, a casa da avó, os embalos na rede, a risada graciosa das tias, o abraço bem pequenino dos primos, o tabaco mastigado do vovô, o jeito de dançar desengonçado dEla, o doce de Cupu, as tapiocas e as pupunhas quentes com café preto. Meu texto vai rezar as palavras decoradas ao pé da cama, as primeiras fábulas, os poemas mais queridinhos, o violão no sofá, a televisão ligada e a gente junto.

Desejo que meu texto surja dos pássaros e voe. Saia dos galhos molhados bem cedinho e conquiste o azul todinho. Desejo que renasçam palavras iguais a manhã, do tipo aurora, arrebol, alvorada, um texto sol quente, cheiro de manga, coco gelado, o bastante para ser lido e bebido à beira mar com cheiro de espuma, cheiro de suco de alguma fruta engraçada como carambola - lembranças do cheirinho doce dela. Meu texto vai tomar banho nas ondas, sentir a areia molhada debaixo dos pés descalços, o anseio doido varrido de amar e ser amado um dia nesta vida por Ela. Isso mesmo, preciso de um texto alegre e escancarado como o sorriso dEla.

Preciso de um texto com a imaginação de menino, as empolgações, a rabiola cortada, o primeiro verso escrito pra Ela - podia ter entregado - os aniversários cheios de criança estranha, a primeira bicicleta pra ir sozinho à escola, a vontade de Ela ir comigo na garupa à pracinha. Um texto assim todo metidinho, sem nenhuma teoria complicada. Preciso de um texto feito manhã de domingo, tranquilo, preguiçoso, lento, publicado num jornal de domingo sem sangue, por Deus, sem sangue. Um texto para cativar os olhos e saborear goles de chocolate, mordidas de pão com manteiga e queijo.  Preciso de um texto que concentre a sutileza das horas lindas em que minha mente se ocupou de pensar nEla, amá-la tanto sem Ela nunca saber! Ela, Minha Menina, o texto que calou minhas palavras, nome perdido nos giros da infância.

Meu texto vai crescer amanhã, será de novo chato e triste como todo adulto. Se o celular tocar no trabalho, ainda posso imaginar bem na tela o nomezinho inesquecível dEla. 

Comentários até o momento: 3

fofinho o texto meu amigo chato…
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
bjs

Obrigado, minha chata querida favorita.

Deu-até-saudade-dEla!

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