Os inquietos passam a maior parte da vida à procura do que desconhecem. Os ignorantes gastam seus dias à procura do que acreditam saber. Ignorantes alegam sabedoria, riem das inquietudes humanas. Alerto: pessoas inquietas não são propriamente sábias. O conhecimento é território da ciência, não atinge o semblante das emoções. Reconheço, tenho como tantos a alma inquieta, e tudo que ignoro é o que sinto. E tudo o que compreendo, meu coração não acolhe.
Este coração, vítima fácil de tantas saudades, está aberto a coisas demais, está aberto a devaneios demais. Sim, às vezes, imagino a mão de uma namorada casual me levando por estes caminhos de agora, graves, despovoados. Alguém que, supostamente ou tolamente, pode trazer nos braços um resquício do que foi o mundo ou recolha minha vida em sua boca.
Aos poucos, tenho procurado abraçar a razão, apagar essas imagens adolescentes. Estou crescido, não é justificável colecionar pequenas amarguras, grandes epifanias que gênio nenhum escreveria. A genialidade é um princípio da loucura. Fernando Pessoa proclamou: “quanto mais nobre o gênio, menos nobre o destino”. Tenho medo do destino! Pode ser que a fortuna ou a fatalidade de um homem já esteja prevista, quem sabe um plano reserve minha sina. Como não sei onde ler meu acaso, posso começar um livro bem metidinho sobre meus dilemas, uns dirão, existenciais. Boa sorte!
Devo desviar meus caprichos de possíveis consolos, de possíveis ansiedades, de possíveis possibilidades sem hora. E esses pleonasmos, esses vícios improdutivamente queridos, o contrário de cada vício é uma virtude. E eu, o que tenho mais cativado? Cigarros, rancores, porres? Purezas, bondades e sobriedade? Nunca mais criei um neologismo, nunca mais encontrei um jeito de me encontrar. E os beijos furtivos que tanto me consolam, onde procurá-los? Bares, igrejas, boates, casas de amigos? Listo uma dezena de nomes no aparelho, todos parecem estrangeiros. Os amores não se cumprem na medida das procuras. Cada encontro é uma maneira de não se achar. Procuro, então, povoar ao menos a lembrança de alguma alegria. Alternativa vã de conquistar abrigo fora do presente. Desvendo, abatido, poucas esperanças em mim. Deveras nunca fui amado como queria, beijado como queria, feliz como queria. Na verdade, nunca fomos amados como queríamos. Bobagem crer que o passado seja a casa onde habitou nossa sorte. Criancice acreditar no amor como um troféu capaz de arrematar todos os nossos ideais.
René Descartes, em “As paixões da alma”, divide o amor segundo a estima que temos pela pessoa amada: quando estimamos a pessoa amada menos que a nós mesmos, temos por ela afeição; quando estimamos tanto quanto a nós mesmos, a amizade; quando a estima ultrapassa a nós mesmos, a devoção. Agora, como justificar a paixão que cega as afeições, rompe a amizade e chicoteia a devoção? Estremeções que abalam julgamentos, não se serenizam abaixo de nós nem se agigantam sobre nós, apenas engolem a nossa capacidade de ir embora, nos submetem a uma ausência de tudo. E toda falta se faz repleta de descobertas e esperanças. Outra vez quero escrever, muitas imagens compõem este cenário de fragmentos: a ternura física das palavras no papel, retinas mirando minha alma de verbo, dedos cativando páginas em que exprimo o suco pouco frutífero da solidão.
Ligo a tevê, uma menina de uns 17 beija sofregamente um cara de 30 ou mais, essa amostra de amor recompensa minha ingenuidade. Não estou louco, ainda me emocionam as besteirinhas da juventude. Penso no cheiro dos cabelos da moça da televisão, só que os seios dela saltam para o foco e eu perco o sentimento poético. Pelo menos estou livre da filosofia, não há mais poesia na minha epiderme. Os seios na tela apagam a arte dos olhos, são durinhos demais pra rimarem com minhas retinas. Vontades não são rotas até o firmamento dos deleites. Prazeres inesperadamente cruzam nossa história como paisagens breves… Meninos são assim mesmo, vivem de angústias, cativam fantasmas, inventam memórias e pornografias. Deixa pra lá todas as previsões, algumas esperanças só se assentam no passado. Droga, voltei à filosofia.
Muitos dirão que cativo a tristeza. Ingênuos, não conhecem as minhas penas, o quanto me esquivo, o quanto me acabrunho em todos os receios. Muitos dirão que estou demente, só que a demência não é a categoria primitiva da genialidade. A genialidade só é conseguida pelos que têm a alma inquieta. Mas os inquietos só entendem as leis do conhecimento, a literatura lamenta sua inocente inaptidão. Sou pouco brilhante nesta tarefa de pensar. Minha inquietude ainda sabe pouco do mundo. É preciso calibrar o peso das faltas, medir a gravidade dos fracassos, pôr a mesa no quintal e sorrir dos sonhos arruinados. É preciso, apesar de tantas ameaças, plantar pequenas promessas nesta terra infértil.
Quem sabe amanhã, embora persista a demora, mudemos esta ladainha triste. O corpo não tolera mais as invenções da alma. Bem-vinda, ignorância alheia! Adeus, inquietude amiga!







É isto aí,Ladainha nossa de cada dia,cative em mim algo que fora do mundo das idéias sufoque nesta realidade!
Muito Bom!
Parabéns Belo!
Abraço!
Belissímo e cheio de conteúdo…parabéns!
nuss!!!!!!!!!!!!!!!!
perfeito….e melancólico..