Imprecisões

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Postado em Crônicas. Por Geovane Belo. Em 23 de maio de 2010.

Brindamos a despedida dos amantes, taças de cristal, goles de sangue e vinho seco. Tim-tim, até outra vida, amor. A aquarela dos dois destoou. O vice-versa dos sonhos não desenhou mais seus reflexos. Ácido nos olhos. Teus olhos fechados escondem paisagens divinais. Ardência na língua. Tua boca muda mastiga as guloseimas do mundo. Inchaços na carne. Tua mão fechada sepulta carícias, desperta a fastiosa ausência de qualquer coisa sem nome. Suores na pele. Teu cabelo preso aprisiona o vento.  

Fartos nos embebemos de nada. Nem a fome nos relega alimento. Os contrários não mais se alinham, o convite virou fuga. Fisicamente, o amor só admite a lógica do absurdo. Perdeu a astúcia, perdeu o discernimento. O sentimento mimoso digladia com a razão.

O espelho despencou da penteadeira, a moldura das recíprocas se partiu. As cores não pintam mais o quadro do dia. 

As crianças que trocaram confidências, hoje colecionam farpas.  No novo duelo, escamoteiam-se nas falas, nas praças, nas vaidades. Chegou o tempo de segredos sem partilha, entregas sem cânticos, desejos sem afeto, ritos sem nenhum mistério.

Na fronteira do engano, das decepções, das rixas conjugais, o parentesco se tornou alheio. Vontades cúmplices agora inimigas.  Religiosamente, o amor só sabe viver do que gerou a fé. Ficam os preceitos na hipótese e só os pecados ressuscitam. O silêncio pode ainda ser  decifrado sem o código dos olhares?

Sem mapa procuramos um tesouro. Há muito tempo, vasculhamos  cavernas, temíamos o breu.  Há muito tempo, flutuamos , temíamos o céu. Navegamos há décadas, não conhecíamos oceanos, não sabíamos nadar. Perdidos no mesmo canto, roubamos todos os sonhos e perdemos todas as esperanças.  

Palavras quietas, charadas, entrelinhas,   enigmas, coisinhas miúdas sobre a cama, parábolas sem evangelho.  Caminhamos até o lugar exato e não encontramos guarida, rotas mal sinalizadas, trajeto sem linha de chegada. Certas verdades só admitem o espanto. Certos dias, confessamos o calor da mentira. O mundo gira, roda gigante de rotações descomedidas, enfado e entusiasmo, coração em ritmo afetado, bilhete caro para vida.

Todas as demoras são batalhas, e todas as lutas entre  a esperança e a fantasia estão perdidas.  Quando a vida documenta suas partidas, intervalos de ausência se agigantam. Os corpos fuzilados pelo assombro rastejam. Minha pouca memória é inimiga de todas as minhas culpas. Avisto tédio em cada cansaço. Vejo castigo em todos os medos. Não compreendo imprecisões e palavras sem destino. Esvaziadas as lembranças, terei o tédio. Refeitos os planos, terei o futuro. Tudo me apavora, fotos debaixo do colchão, livros com dedicatórias graciosinhas. Do meu lado, o tempo ri da minha mente. Não há temas que cubram as teclas. E diante de tantas negações, todo nosso passado se tinge de tristeza.

Comentários até o momento: 2

Daqueles textos que n’ao tem o que comentar. Como diz uma amiga - fico ate sem palavras*

Amei a crônica.

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