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	<title>Geovane Belo</title>
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	<pubDate>Tue, 31 Aug 2010 20:29:09 +0000</pubDate>
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		<title>Trem</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Aug 2010 20:10:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Geovane Belo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Quem não muda, não repara as tantas paisagens que se apresentam a nós a todo instante. Tudo muda na mudança de foco, o que define a mudança é a direção dos olhos. O que define o tamanho do afeto não é a soma dos carinhos, é a febre da saudade, febres são sinais de alguma ausência.  
Só algumas sensações permanecem do mesmo jeito. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span style="color: #676767;">Quem não muda, não repara as tantas paisagens que se apresentam a nós a todo instante. Tudo muda na mudança de foco, o que define a mudança é a direção dos olhos. O que define o tamanho do afeto não é a soma dos carinhos, é a febre da saudade, febres são sinais de alguma ausência.  </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #676767;">Só algumas sensações permanecem do mesmo jeito. Filosofia? Há filosofia em tudo que se quer compreender. Nada é exatamente como foi nem o corpo, nem as emoções, nem a mente, nem os gestos de amor. O humano celebra, sem ver, o rito da metamorfose cotidiana. O dia-a-dia é a corrente dos mutáveis, o banquete das representações. Todos nós temos desempenhado um papel no teatro da existência, não sabemos qual representação nos cabe, se somos artistas ou fantoches. Buscamos o riso e nos precipitamos nos dramas. Debatemo-nos nas cenas de culpa, nos episódios comoventes da paixão. Mudamos. Passamos. Estamos sempre partindo, viagem longa rumo ao desconhecido. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #676767;">Pagamos a passagem e subimos no trem, não sabemos se há paradas obrigatórias nem se há alimento para todo o percurso. Sentimos sede,  sentimos enjoos e dores pelo corpo. Em nosso vagão, viajam tantas pessoas, se revezam, algumas raras ficam mais tempo. E em cada segundo existe um pedaço de uma eternidade passageira. A falta de companhia nos torna carentes de afeto, carentes de palavras e dedos. Vez ou outra, temos álguém pra conversar, temos também na bagagem agasalhos de sobra, ainda assim sentimos frio. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #676767;">No trem, mudamos de lugar, olhamos pela janela, paisagens  passam despercebidas, outras tantas permanecem. Dormimos na poltrona, babamos na camisa branca, caminhamos pelo corredor. Às vezes, alguém senta ao nosso lado por algum tempo, depois muda de assento, ou muda de vagão, ou se cansa e se joga nos trilhos.  E toda mudança é racional se regida pelo tempo do esquecimento. Todo amor é sucedido ou precedido por outra forma de amor. Toda mudança decreta o fim de algum sinal de vida. O fim de um abraço, de uma piada, de um sessão de cinema, há sempre uma finalidade incrível em existir fim para todas as coisas. Quase tudo precisa de um fim para ter sentido. Escrever um livro é a magnífica operação de  criar, mas ele não pode ser publicado sem desfecho. Depois do encerramento de uma jornada, virá outra, mas curta, mas longa talvez. Há o tempo de esquecer e o tempo de lembrar. E entre estes dois tempos, o que mais se avoluma é o tempo das esperas. Esperança é o vício de quem se embriaga de sonhos e prefere, no lugar de olhar a paisagem, fechar os olhos e imaginá-la. Esperar chegar a algum lugar, esperar alguém entrar e depositar risos em nosso caminho  e depositar de novo o sol nas madrugadas. Esperar sem perecer é exercício de construir palácios sobre ruínas. Tempo de lembrar e de esquecer. Não nessa ordem, não que exista uma ordem para tempos.<strong> </strong>Normalmente o lembrar sinaliza a dor ainda presente, e o  esquecimento a dor que partiu. Mas, às vezes, a inversão revela a capacidade que temos de mudar a lógica do tempo.  Esquecer pode ser a dor intensa de ficar vazio e lembrar pode restaurar a grandiosidade de uma alegria que não se tem mais. Isso mesmo, mudança significa renovação, mudança significa adentrar cenários virgens ou reformar a casa conhecida. Mudança tem a ver com começar de novo a cada desfecho, de pôr ponto final na interrogação, de colocar reticências em exclamações. Há tanta desordem no duelo entre tempo e coração. O tempo das confusões é o tempo da vida. Tempo acima de todo tempo. A solidão costuma resgatar memórias perdidas no passado. Não existe passado para quem reconhece a felicidade nos dias de agora. Não existe presente para quem assiste às cenas de outrora com demasiada nostalgia.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #676767;">Sorte nossa, há sem dúvida o tempos de flores, uma estação. Tempo de cativar a presença, de sentir o percurso intenso dos desejos, tempo de saciar a saudade. No entanto, existem conspirações,  desajustes que repercutem em descobertas  infundadas sobre o amor.  As teorias do sentimento tão óbvias, tão fáceis de manipular, e que configuram os elos do emoção,  desenham a benquerênça romântica, mas infelizmente tão impróprias à alma humana, tão possíveis de fragmentar a alegria.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #676767;"> Das visões desta viagem, ficam as mais comoventes: a maior alegria, e intensamente a maior tristeza. O tempo da lembrança é a matéria-prima do presente. Mas toda lembrança um dia desemboca no tempo do esquecimento. O tempo de esquecer anula o tempo do contentamento e resgata o tempo do cansaço.  A paciência é a única espada capaz de vencer o cansaço. Não importam as longas demoras diante do tempo das descobertas. Nada vale o desassossego, a paz um dia vigora. Danem-se os descréditos dados a nossa pouca sabedoria, somos feitos de pensamentos refeitos. E mudamos de ideias como quem muda de sapato.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #676767;">Nesta longa viagem, o maquinista nos guia ao imprevisível.  Há perigos, há cansaços de morrer, a chegada é incerta e o medo, inevitável. O tempo é apenas a impressão de que os dias mudam, os dias são todos iguais. Somos nós que alteramos o olhar. O tempo está no comando e nós estamos com ele, existem tantos cenários lá fora, mas dentro o vagão é o mesmo espaço de sempre.</span></p>
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		<title>sentido</title>
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		<pubDate>Sun, 29 Aug 2010 21:51:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Geovane Belo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Poesias]]></category>

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		<description><![CDATA[o amor é qualquer coisa sem sentido: remédio que nos infecciona.
o amor é qualquer coisa sem sentido: caridade que nos rouba de nós mesmos.
o amor é qualquer coisa sem sentido: poesia triste, mas belíssima, belíssima.
o amor é mesmo qualquer coisa sem sentido: uma maneira de esperar sem muita fé.
por que não ser qualquer coisa previsível, calculável, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>o amor é qualquer coisa sem sentido: remédio que nos infecciona.</p>
<p>o amor é qualquer coisa sem sentido: caridade que nos rouba de nós mesmos.</p>
<p>o amor é qualquer coisa sem sentido: poesia triste, mas belíssima, belíssima.</p>
<p>o amor é mesmo qualquer coisa sem sentido: uma maneira de esperar sem muita fé.</p>
<p>por que não ser qualquer coisa previsível, calculável, sensata como tantas outras coisas?</p>
<p>amor é sentimento sem nome, efeito sem causa, ciência sem verdade.</p>
<p>amor é palavra que se repete todas as vezes que as palavras falham,  faltam ou se escondem</p>
<p>amor é a coisa mais sem sentido do mundo</p>
<p>mas o sentido do mundo é isso:</p>
<p>algumas coisas essenciais não terem qualquer sentido.</p>
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		<title>Presságio</title>
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		<pubDate>Sun, 29 Aug 2010 21:31:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Geovane Belo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Poesias]]></category>

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		<description><![CDATA[Tenho pressa de ser seu, 
não sou muito, 
mas sou ágil.
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			<content:encoded><![CDATA[<p><span style="color: #6c6c6c;">Tenho pressa de ser seu, </span></p>
<p><span style="color: #6c6c6c;">não sou muito, </span></p>
<p><span style="color: #6c6c6c;">mas sou ágil.</span></p>
]]></content:encoded>
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		<title>QUE</title>
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		<pubDate>Thu, 29 Jul 2010 14:48:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Geovane Belo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Que as quedas não fraturem as esperanças e as grandes verdades não nos tirem a capacidade de mudar! Que o medo não cresça a ponto de empobrecer nosso espírito e o tempo se ocupe de restaurar os espaços dizimados pela dor. Que o vento não cesse seu sopro e carregue tudo que precisa seguir. Que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify"><span style="color: #7d7d7d;">Que as quedas não fraturem as esperanças e as grandes verdades não nos tirem a capacidade de mudar! Que o medo não cresça a ponto de empobrecer nosso espírito e o tempo se ocupe de restaurar os espaços dizimados pela dor. Que o vento não cesse seu sopro e carregue tudo que precisa seguir. Que as palavras venham sempre depositar a fortaleza do amparo, o consolo do refúgio, a sabedoria redentora da poesia. Que o silêncio também estabeleça a reconciliação entre palavras e memórias esquecidas dentro de nós. Que as amarguras não apaguem a fé, não engrandeçam o peso da solidão sobre o ritmo dos sonhos. Que seja contagiante cada reencontro, que seja mágica, e não angustiante, cada espera. Que a música nos faça chorar quando tivermos vontade, mas que ela também embale nosso sorriso, mova nosso corpo de criança crescida. Que tenhamos sempre alguém ao lado para ofertar um abraço generoso, um conselho rejuvenescedor. Que, a cada dia, aprendamos: a inteligência está na maneira de olhar e entender, de amar e cuidar, de errar e pedir desculpa, de educar e dar exemplo, de ser amigo, prestativo e afetuoso até mesmo na indiferença. Que as pessoas saibam reconhecer nossas capacidades e apontem, com cautela, nossos limites. Que nossos exageros, chiliques, traquinagens sejam relevados como uma piada nada maldosa. Que o desejo de vingança vire perdão, que o desejo de acusar vire direito de ouvir, que a inveja vire admiração. Que as religiões não ensinem a discriminar, separar, mas perpetuem a bondade, a misericórdia. Que as mágoas virem uma nova chance. Que saibamos cuidar de cada canto da casa e, se ela ruir, que tenhamos braços e força para reerguê-la. Que os amigos sintam saudade, tornem-se o escudo contra os desafetos e reconheçam os traços de tristeza que, às vezes, são desenhados em nosso semblante. Que nossa maturidade e discernimento não nos projetem para fora do mundo porque a genialidade é um conceito provisório e pessoal. Que nossa família seja sensata e, mesmo quando existir truculência e rigidez, que prevaleça o amor fraterno e o diálogo. Que o peito se tranquilize e alguém surja, renove nossa história, e o final feliz não seja mais coisa de cinema, seja coisa de quem crê na vida.</span></p>
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		<title>A traumática experiência do fim</title>
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		<pubDate>Fri, 23 Jul 2010 17:39:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Geovane Belo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[O fim de uma fase é uma prova de fogo. Coloca-nos diante da tragédia da vida: passar todo o tempo tecendo elos duradouros, depois ter de desfazê-los um a um, linha por linha, árdua tarefa de destranças laços.

Quem termina um relacionamento tem de enfrentar uma espécie de morte de si mesmo, até mesmo porque dificilmente, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span style="FONT-SIZE: 12pt; LINE-HEIGHT: 115%"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Calibri;"><span style="font-size: 12pt; line-height: 115%; font-family: &quot;Times New Roman&quot;,&quot;serif&quot;;"><span style="color: #7d7788;"><span style="font-size: 12pt; color: #595959; line-height: 115%; mso-themecolor: text1; mso-themetint: 166; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman';"><span style="font-family: Calibri;">O fim de uma fase é uma prova de fogo. Coloca-nos diante da tragédia da vida: passar todo o tempo tecendo elos duradouros, depois ter de desfazê-los um a um, linha por linha, árdua tarefa de destranças laços.</span></span></span></span></span></span></span></p>
<p style="text-align: justify;">
<p class="MsoNormal" style="text-justify: inter-ideograph; margin: 0cm 0cm 10pt; text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; color: #595959; line-height: 115%; mso-themecolor: text1; mso-themetint: 166; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman';"><span style="font-family: Calibri;">Quem termina um relacionamento tem de enfrentar uma espécie de morte de si mesmo, até mesmo porque dificilmente, para ambos, o fim coincide com o término do sentimento. A maioria dos casais rompe numa época em que, pelo menos um, ainda se nutre do amor. Laços afetivos, quando podados antes do tempo previsto, costumam deixar marcas quase incicatrizáveis. Uma coisa é você viver com alguém até o último suspiro da dependência, até o amor dar tudo o que podia de si, outra é você deixá-lo partir quando o coração ainda não desteceu os bordados da paixão.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-justify: inter-ideograph; margin: 0cm 0cm 10pt; text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; color: #595959; line-height: 115%; mso-themecolor: text1; mso-themetint: 166; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman';"><span style="font-family: Calibri;">Dói ver as cenas do desenlace, dividir o cenário, o mesmo que compôs uma história e ter de fragmentá-lo, reparti-lo. Decidir o que fica com cada, quem leva presentes, filmes, objetos simbólicos, livros, algumas cartas, coisas secretas. A pessoa que vai não vai desacompanhada, leva sem nossa licença um modo de sorrir que a gente tinha, leva nossas manias, nossos chiliques repentinos, carinhos compartilhados, grandes confidências reveladas, malícias a dois, leva muito da nossa segurança, das fantasias, leva os álbuns de viagens e as discussões sem nexo&#8230;</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-justify: inter-ideograph; margin: 0cm 0cm 10pt; text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; color: #595959; line-height: 115%; mso-themecolor: text1; mso-themetint: 166; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman';"><span style="font-family: Calibri;">Dói não participar mais dos hábitos, mudar a rotina, o papo no sofá, a conversa íntima sobre qualquer coisa, as preocupações durante o café, dói arquivar as esperanças e reconstruir os afetos. Dói sair pela porta da frente, entrada de todos os dias, lugar do bom dia e da despedida carinhosa das noites cotidianas. Dói saber que outro ocupará o seu espaço, haverá novas entregas, novas coisinhas miúdas para compor o quadro tão largo da sua falta. Dói saber que, depois de um tempo, você não será mais falta, talvez retrato de uma lembrança num passado irrecuperável. Dói o celular mudo, fazer as coisas de antes sem o olhar cauteloso, sem o cuidado e as regrinhas próprias do amor. O seu amor não pode mais ser chamado de seu, perdido o domínio, não há mais controle algum sobre as rotinas. O nome na agenda foi reeditado, perdeu o destaque e o encanto.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-justify: inter-ideograph; margin: 0cm 0cm 10pt; text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; color: #595959; line-height: 115%; mso-themecolor: text1; mso-themetint: 166; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman';"><span style="font-family: Calibri;">Dói saber que o desfecho é o prenúncio de que a vida segue assim mesmo, e a felicidade não é uma questão de pessoa, e sim de tempo. O outro terá tarefas a cumprir e, mesmo sem sua ajuda, cumprirá todos os ofícios que lhe cabem. Haverá o tempo do esquecimento. A pessoa amada, na distância, deixará o vazio dos afagos, e a mente se cumprirá de preenchê-lo novamente. E tudo será intenso como foi ao seu lado porque só nos permitimos amar no presente. Até quando não acatamos o elo perdido, não vivemos presos ao passado, é o presente que ainda revoga a vida de antes, o passado ainda reveste o hoje. Dói compreender que nossa existência repele a solidão e o outro não pode sofrer ininterruptamente nossa ausência. Quem você amou aprenderá a amar alguém, e sofrerá pelas mesmas miudezas, e será de outra pessoa como foi só seu. Ninguém nos pertence e a partida documenta a perda, aciona o recomeço. </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-justify: inter-ideograph; margin: 0cm 0cm 10pt; text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; color: #595959; line-height: 115%; mso-themecolor: text1; mso-themetint: 166; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman';"><span style="font-family: Calibri;">Dói, dói mesmo. Mas depois a dor é serenizada, não é mais dor, é restauração. Temos de então vencer, acima de tudo, o egoísmo, dar espaço para aquele a quem quisemos tão bem se erguer, precisamos aniquilar a convicção de que só nós podíamos fazê-lo feliz. Temos de amadurecer, possibilitar a distância necessária para as angústias silenciarem, e que a felicidade possa novamente adentrar as casas divididas. A felicidade do outro não pode nos incomodar, não pode interferir na nossa nova jornada. Não devemos ter a pretensão de permanecer no outro, partir e deixá-lo deficiente, tristeza sem remédio, querer que o outro continue nos amando para alimentar nosso ego.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-justify: inter-ideograph; margin: 0cm 0cm 10pt; text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; color: #595959; line-height: 115%; mso-themecolor: text1; mso-themetint: 166; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman';"><span style="font-family: Calibri;">Na verdade, estamos sempre partindo, sempre desintegrando nossa matéria nas passagens do tempo. Amores partem porque “navegar é preciso”, e partidas são feitas de lamentação e saudade, fica algo nosso em cada porto, dor abstrata de se despedaçar e recompor-se em cada viagem. A pessoa que fica no cais, dali em diante também seguirá, mas por outra rota, novos mares, outras vistas, novas companhias, novas experiências, novas ilusões. Poderá olhar o passado e achar que foi feliz, mas procurará no hoje o território das flores. </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; color: #595959; line-height: 115%; mso-themecolor: text1; mso-themetint: 166; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman';"><span style="font-family: Calibri;">A vida segue seu ciclo, o mundo gira em torno de nossos corpos suspensos, gira por meio das escolhas que conduzem o destino, conspira para enlaces e desenlaces, muitos injustificáveis, e precisamos de pés e de coragem para recriar a vida, senti-la neste instante e bordar em seu pano uma composição de amanhã muito mais belo.</span></span></p>
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		<title>Coração de férias</title>
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		<pubDate>Sat, 17 Jul 2010 05:20:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Geovane Belo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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Pus o coração de férias por algumas obviedades. Primeiro pelo cansaço e fadiga decorrentes do trabalho constante. Depois, o repouso era justificável pelo fato de a máquina humana não funcionar mais a todo vapor, necessitando de reparos, cobertura mais resistente. As precipitações e solavancos deterioram parte de sua estrutura e só a revitalização podia amenizar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div><span style="font-family: Calibri;"></span></div>
<div><span style="font-family: Calibri;"><span style="mso-spacerun: yes"></span></span></div>
<p><span style="font-family: Calibri;"><span style="mso-spacerun: yes"><span style="font-size: 12pt; color: #7f7f7f; mso-fareast-language: PT-BR; mso-themecolor: text1; mso-themetint: 128; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-bidi-font-family: 'Times New Roman'; mso-ascii-font-family: Calibri; mso-hansi-font-family: Calibri;"></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="mso-fareast-language: PT-BR; mso-themecolor: text1; mso-themetint: 128;"><span style="color: #888888;"><span style="color: #828282;">P</span><span style="color: #828282;"><span style="color: #828282;">us o coração</span> de férias por algumas obviedades. Primeiro pelo cansaço e fadiga decorrentes do trabalho constante. Depois, o repouso era justificável pelo fato de a máquina humana não funcionar mais a todo vapor, necessitando de reparos, cobertura mais resistente. As precipitações e solavancos deterioram parte de sua estrutura e só a revitalização podia amenizar os desgastes do tempo, do mau uso, principalmente pelo mau uso e pela sobrecarga no trato com um instrumento tão delicado.</span></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="mso-fareast-language: PT-BR; mso-themecolor: text1; mso-themetint: 128;"><span style="color: #828282;">Pus o coração de férias. Ele que é, além de máquina, trabalhador rude e pouco instruído resistiu. Queria permanecer na labuta diária em busca de pão. Não acreditava em férias remuneradas. Como sobreviver sem cumprir as árduas tarefas, sem se debater no cumprimento dos ofícios? Foi obrigado a deixar a repartição, arquivar muitos papéis, transferir alguns afazeres para outros funcionários.<span style="mso-spacerun: yes;">  </span></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="mso-fareast-language: PT-BR; mso-themecolor: text1; mso-themetint: 128;"><span style="color: #828282;">Pus o coração de férias. Obriguei-o a buscar um lugar fora da cidade. Distante das perturbações e agitações urbanas, bem longe das pessoas apressadas se acotovelando no centro. Podia escolher paisagens relaxantes, um casebre em Algodoal frente à Princesa do mar. O coração estava com estresse elevado, um pouco depressivo, demonstrando cansaço progressivo, falta de ânimo e baixa concentração. Podia se refugiar num sitiozinho no interior, restituir a paz dos tempos em que não havia tantas obrigações, tensões, tanta balburdia pra sobreviver aos desígnios do amor. </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="mso-fareast-language: PT-BR; mso-themecolor: text1; mso-themetint: 128;"><span style="color: #828282;">Pus o coração de férias. Uma alternativa seria um pouco de diversão. Praia, muito sol, embriaguez, mulheres seminuas, música bem alta. Quem sabe o calor de beijos sem compromisso descarregasse um pouco do enfado de viver. O coração podia se aventurar em paixões mais efêmeras, pequenos ensaios de ilusão, capazes de fazê-lo esquecer as intermitências daquele amor grandioso necessário para a manutenção da vida. Aquele que virou obrigatoriedade ou se transformou em tédio ou se converteu em desgastante espera.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="mso-fareast-language: PT-BR; mso-themecolor: text1; mso-themetint: 128;"><span style="color: #828282;">Pus o coração de férias. Tive medo de uma pane total do aparelho de palpitação, de um defeito no regulador da alma. Tive receio da morte total advinda da fraqueza, da pusilanimidade do amor.<span style="mso-spacerun: yes;">  </span>Não sei por quanto tempo devo mantê-lo afastado das obrigatoriedades, das resoluções inescapáveis. O coração saiu porta afora, trôpego, sem rumo como menino expulso de casa. Fará bem a ele essa folga para se recompor. Pus o coração de férias para salvá-lo, para não perder a serventia. Pus o coração de férias para esquecer quem sou.<span style="mso-spacerun: yes;">  </span></span></span></p>
<p> </p>
<p></span></span></span></p>
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		<title>Poesia de uma verdade ainda maior</title>
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		<pubDate>Sat, 17 Jul 2010 03:41:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Geovane Belo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Poesias]]></category>

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		<description><![CDATA[Os amigos são o ouvido
do coração
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			<content:encoded><![CDATA[<p><span style="color: #757e8a;">Os amigos são o ouvido</span></p>
<p><span style="color: #757e8a;">do coração</span></p>
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		<title>Uma poesia imensa</title>
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		<pubDate>Fri, 16 Jul 2010 23:05:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Geovane Belo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Poesias]]></category>

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		<description><![CDATA[A única alma que me conhece
nunca me tocou
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			<content:encoded><![CDATA[<p><span style="color: #817b84;">A única alma que me conhece</span></p>
<p><span style="color: #817b84;">nunca me tocou</span></p>
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		<title>Crônica de uma decepção brasileira</title>
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		<pubDate>Sat, 10 Jul 2010 04:03:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Geovane Belo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Muitos perderam bem mais que uma copa, perderam a ilusão de que a vida era isso: um palco de chuteiras mágicas tocando nosso coraçãozinho besta. Perdemos a ilusão de que não havia mais problemas nem trabalho, nem fome. Nós tínhamos tudo e tudo nos era permitido, éramos como gladiadores do mundo moderno, não importava o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><span style="color: #828282;">Muitos perderam bem mais que uma copa, perderam a ilusão de que a vida era isso: um palco de chuteiras mágicas tocando nosso coraçãozinho besta. Perdemos a ilusão de que não havia mais problemas nem trabalho, nem fome. Nós tínhamos tudo e tudo nos era permitido, éramos como gladiadores do mundo moderno, não importava o lugar que estivéssemos: nos bares, nas ruas, nos grandes edifícios, na roça, nas favelas. Tínhamos o mesmo valor e poder, por toda parte. Éramos armas imbatíveis de bandeira na mão e de chuteiras em sonho. Tudo por que havíamos esquecidos de que a vida é essa coisa que ficou agora.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><span style="color: #828282;">Vi homens de verdade aos prantos, uma nação em desalento&#8230; Todos haviam esquecido de tudo pra sonhar com a maior conquista das nossas vidas: uma estatueta de ouro na África do Sul. Mas, poxa, isso nos tornaria ainda mais perfeitos, deixaria nossa vida de meninos pobres mais feliz, fortaleceria nossa alma cheia de marcas existenciais&#8230; Mas que pena, mas que droga! Estamos acabados, e a derrota na copa parece pior que a de toda a nossa história, pior que a seca, que as mortes por terra, que a prostituição, que as dezenas de casos de corrupção, pior ainda que as chacinas, os assassinatos midiáticos. Talvez ocorram dezenas de rebeliões agora, os presos exigiram ver a copa em telas planas, mas, neste instante, devem achar que seria melhor ter pedido alguma bolsa nova pro Lula, uma visitinha da Gisele Bianchi, tudo seria melhor que esse joguinho f&#8230;, o time amarelou, melhor, alaranjou.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><span style="color: #828282;">Eu, também decepcionado, desolado, como tantos outros, não posso esconder a minha lástima e desgosto. Mas o mais lamentável é estar assim comigo mesmo, por ter caído na real e ter de ver o mundo como ele é: sem dinheiro no banco, sem mulher e sem nenhuma pena revigorante, nenhuma hipótese bem projetada de desejo.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><span style="color: #828282;">Alguns até estão dizendo: “nós deixamos mesmo eles vencerem, nós não podemos ganhar sempre”. Mas, na verdade, nós acreditávamos que podíamos sim, a derrota não foi feita para nós.<span style="mso-spacerun: yes;">  </span>Essa taça era nossa, o céu dizia isso, o polvo, os búzios, as bolas de cristal e principalmente a voz rouca e &#8216;globalizada&#8217; na tevê. Meu Deus, essa conquista faria com que nos sentíssemos insuperáveis, intransponíveis; os outros seriam bichinhos afoitos lambendo nossos pés de estrela. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><span style="color: #828282;">Contudo, o fim precoce dessa grande quimera diante da galáxia inteira, que se borrava de medo da gente, levou-me ao maior dos desenganos, levou-me a certeza de que toda uma nação e eu sofremos mais por uma derrota na copa do que poderíamos sofrer por toda uma vida sem dignidade, sem justiça e sem amor. Nós, há alguns dias, éramos nacionalistas, dormíamos com a bandeira, pintávamos a cara, enfeitávamos as ruas, as casas, assoprávamos as vuvuzelas. Agora, o que resta é revolta, é esquecer e voltar à luta pela sobrevivência. Talvez, daqui a quatro anos na nossa casa, nós consigamos de volta a supremacia futebolística, isso se estivermos inteiros até lá, os estádios saírem do papel e próximo técnico levar o Ganso, o Pato e todo o resto do galinheiro.</span></p>
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		<title>Textinho pra Ela</title>
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		<pubDate>Sun, 20 Jun 2010 16:04:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Geovane Belo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[

Preciso de um texto limpo e bonito. Nada de amarguras, faltas acumuladas, sombras, embriaguez. Hoje preciso de um texto inocência, beijo na bochecha, um texto amor de criança. Quero-o agora alegremente pulando dos meus dedos, escorregando no tobogã da palavra. No corpo nenhuma melancolia, nenhum desassossego, nenhum pesadelo adulto. Preciso controlar hoje a tristeza íntima [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div><span style="color: #888888;"><span style="mso-fareast-language: PT-BR;"><span style="font-size: small;"><span style="color: #000000;"></span></span></span></span></div>
<p><span style="color: #888888;"><span style="mso-fareast-language: PT-BR;"><span style="font-size: small;"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Calibri;"></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; margin: 0cm 0cm 10pt;"><span style="line-height: 115%; font-size: 12pt; mso-fareast-language: PT-BR;"><span style="color: #888888;"><span style="color: #676767;">P</span><span style="color: #676767;"><span style="color: #676767;">re</span>ciso de um texto limpo e bonito. Nada de amarguras, faltas acumuladas, sombras, embriaguez. Hoje preciso de um texto inocência, beijo na bochecha, um texto amor de criança. Quero-o agora alegremente pulando dos meus dedos, escorregando no tobogã da palavra. No corpo nenhuma melancolia, nenhum desassossego, nenhum pesadelo adulto. Preciso controlar hoje a tristeza íntima da literatura. Preciso e quero ver desaguando de mim um texto rio, texto cachoeira, lágrima de sorriso, escrito molhado, H2O romântico.</span></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; margin: 0cm 0cm 10pt;"><span style="line-height: 115%; font-size: 12pt; mso-fareast-language: PT-BR;"><span style="color: #676767;">Preciso de uma voz líquida, sem as duras angústias, preciso trazer a natureza para compor minha palavra, diminuir os adjetivos, serenizar o vento, subir nos muros, abrir os braços, trepar nos galhos altos, colher as goiabas,  correr debaixo de chuva e tomar banho nas biqueiras.<span style="mso-spacerun: yes;">  </span>Meu texto vai proclamar os olhos, a mão e o cabelo cheiroso que Ela tinha, o único papagaio que foi meu, o primeiro cachorro, o são Jorge preso na lua, a estrela Dalva cintilando em algum lugar lá em cima, falar como doía gostoso ficar à espera dEla, o que sentia ao lado da Minha Menina. Meu texto vai sentar suado na calçada, brincar pira, chupar manga com sal, jogar bola no terreiro, se esconder pra não banhar cedo. Vai mostrar como era tudo de lindo o sorrisinho dEla, a mania que Ela tinha de crescer e me deixar pra trás. Meu texto vai falar de boca cheia, e não vai esquecer o feijão preto, o bolo de macaxeira; e Ela, à mesa, mastigando ao meu lado os minutos, os quitutes, rindo alto com cara de gente grande.<span style="mso-spacerun: yes;">  </span></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; margin: 0cm 0cm 10pt;"><span style="line-height: 115%; font-size: 12pt; mso-fareast-language: PT-BR;"><span style="color: #676767;">Meu texto vai pra dentro de mim, vai procurar onde Minha Menina foi parar com aquele jeito engraçado de chegar comigo e me chamar de Seu Besta. “Não chora, Seu Besta”.<span style="mso-spacerun: yes;">  </span>“Já vou, Seu Besta”. Era gostoso demais ser o Seu Besta da Minha Menina, com letra maiúscula na frente, amar como Seu Besta e não pensar que o amor era uma droga de besteira. Preciso de um texto lindo. Preciso de um texto perfume, um texto flor, um texto margarida, um texto néctar, um texto beija-flor, um texto abelha, um texto mel, um texto dedo e língua no mel. Meu texto vai longe, vai recolher o passado e colocá-lo aqui no papel, vai guardar a seriedade paterna, o papo sobre nada com os amigos, a vontade de falar inglês, os cânticos da igreja. Meu texto vai glorificar os desenhos nas nuvens, a casa da avó, os embalos na rede, a risada graciosa das tias, o abraço bem pequenino dos primos, o tabaco mastigado do vovô, o jeito de dançar desengonçado dEla, o doce de Cupu, as tapiocas e as pupunhas quentes com café preto. Meu texto vai rezar as palavras decoradas ao pé da cama, as primeiras fábulas, os poemas mais queridinhos, o violão no sofá, a televisão ligada e a gente junto.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; margin: 0cm 0cm 10pt;"><span style="line-height: 115%; font-size: 12pt; mso-fareast-language: PT-BR;"><span style="color: #676767;">Desejo que meu texto surja dos pássaros e voe. Saia dos galhos molhados bem cedinho e conquiste o azul todinho. Desejo que renasçam palavras iguais a manhã, do tipo aurora, arrebol, alvorada, um texto sol quente, cheiro de manga, coco gelado, o bastante para ser lido e bebido à beira mar com cheiro de espuma, cheiro de suco de alguma fruta engraçada como carambola - lembranças do cheirinho doce dela. Meu texto vai tomar banho nas ondas, sentir a areia molhada debaixo dos pés descalços, o anseio doido varrido de amar e ser amado um dia nesta vida por Ela. Isso mesmo, preciso de um texto alegre e escancarado como o sorriso dEla.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; margin: 0cm 0cm 10pt;"><span style="line-height: 115%; font-size: 12pt; mso-fareast-language: PT-BR;"><span style="color: #676767;">Preciso de um texto com a imaginação de menino, as empolgações, a rabiola cortada, o primeiro verso escrito pra Ela - podia ter entregado - os aniversários cheios de criança estranha, a primeira bicicleta pra ir sozinho à escola, a vontade de Ela ir comigo na garupa à pracinha. Um texto assim todo metidinho, sem nenhuma teoria complicada. Preciso de um texto feito manhã de domingo, tranquilo, preguiçoso, lento, publicado num jornal de domingo sem sangue, por Deus, sem sangue. Um texto para cativar os olhos e saborear goles de chocolate, mordidas de pão com manteiga e queijo.<span style="mso-spacerun: yes;">  </span>Preciso de um texto que concentre a sutileza das horas lindas em que minha mente se ocupou de pensar nEla, amá-la tanto sem Ela nunca saber! Ela, Minha Menina, o texto que calou minhas palavras, nome perdido nos giros da infância.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; margin: 0cm 0cm 10pt;"><span style="line-height: 115%; font-size: 12pt; mso-fareast-language: PT-BR;"><span style="color: #676767;">Meu texto vai crescer amanhã, será de novo chato e triste como todo adulto. Se o celular tocar no trabalho, ainda posso imaginar bem na tela o nomezinho inesquecível dEla.<span style="mso-spacerun: yes;">  </span></span></span></p>
<p></span></span></span></span></span></p>
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