Postado em Contos. Por Geovane Belo. Em 6 de setembro de 2009.
Pode parecer conversa fiada o que vou lhes contar. Mas melhor acreditarem na fidelidade dos acontecimentos. Ouvi o fato narrado com minúcia e comoção pelo próprio protagonista. E não poderia tomar tal ocorrência como banal e cometer o sacrilégio de não registrá-la.
Vida de professor é dose, diariamente uma barra. Tio Regi aprendeu isso na pele. Anos de magistério serviram para sugar o ardor da mocidade, tabelas, fórmulas, elementos, reações. Sem contar as afobações diárias, salas lotadas, alunos pirracentos, carga-horária intensa. Tudo para conseguir pôr o pão dignamente em casa. No trabalho constante da mente, descuidou-se um pouco do resto, contraiu uns quilinhos de sobra, a voz quase esgotou e enrouqueceu. Os primeiros anos de delírio e efervescência se esvaíram como num sopro. Embora a docência tenha consumido a atmosfera da juventude, serviu principalmente para modelar sua conduta, lhe aguçar o olhar, lapidar e amadurecer sua mente, torná-lo mais terno e gentil no trato com o ser humano.
Naquela quarta não havia nada fora do habitual. Passara o dia inteiro em sala, tratando da Isomeria, da orgânica. Trocou de sala inúmeras vezes, cambaleou pelos corredores, zombou do destino na saleta dos mestres. Discutiu os ácidos, bases, sais, óxidos. Depois de mais uma rotina, da canseira extrema, urgia sentar numa mesa de bar e tomar uma, talvez duas, três… Foi ao boteco de toda semana, despencou no assento e ordenou que trouxessem a mais gelada das geladas e, impreterivelmente, com urgência, o tal arrumadinho de charque, o primor da casa. O dono dedicava atenção redobrada ao cliente. Não era pra menos, o professor se comprazia daquele lugar como não fazia nem mesmo enfiado no sofá de casa, junto à patroa.
Trouxeram a primeira. Tomou velozmente, pediu a segunda e relaxou sobre si mesmo. Não muito depois, chegou o prato, deu sucessivas colheradas e engoliu com voracidade a metade do arrumadinho. Degustava a companhia do copo, dos pedaços dispersos de charque com cheiro-verde, tomate e cebola, embrulhados aos pensamentos corriqueiros e goles de Skol.
Nada diferia esta noite de outras tantas: um futebolzinho de quinta na tela (e era quarta), as mesmas caras enfastiosas, um tanto embriagadas e infelizes. Não esperava que toda aquela monotonia, brevemente, seria rompida. Tio Regi se deixou engolir pela cadeira de plástico. Adeus desgaste, fadiga e adeus às fórmulas todas da química quântica.
Alguns minutos se consumiram no relógio da parede. O professor já estava recomposto. Que mais esperar daquela noite, a não ser chegar em casa e que a cama o tragasse até o dia seguinte? Enquanto refletia, às suas costas, uma cena se esboçava, passos pesados costuravam as mesas, um arrastar de salto, Tio Regi não notara. Até que teve a sensação de que havia alguém atrás, com as mãos sobre a cadeira, virou-se bruscamente e, para o seu estarrecimento, deu com uma idosa quase a cheirar-lhe os cabelos. Um choque de olhares; um sobressalto que, aos poucos, cresceu e, aos poucos, foi se estagnando.
A intrusa - olhar fixo no professor - além do susto, desenhou um leve sorriso amarelecido. Conhecer, não a conhecia. Era esquisita e, no mínimo tinha perdido o senso, ficar no encalço de um homem sem o conhecer, como uma fera a examinar a presa antes do bote. Além da atitude, era demais extravagante seu modo de vestir-se. Trajava um vestido curto, de brilho ofuscante, sobre um corpo sujo e magricelo. A face fortemente maquiada, não convinha à sua idade. Os lábios murchos pintados de vermelho, a sombra escura nos olhos, os cílios marcados desenhavam um contraste entre passado e presente, amargura e realidade. O corpo enrugado numa casca que não lhe convinha. Visão cômica e trágica de um ser em profundo despautério.
Qualquer ser em condição de sanidade a julgaria doida. É que a nossa saúde mental atribui loucura a tudo que não cumpre com os padrões do que a sociedade denomina moral. Nesta concepção, tratava-se aquela senhora de um exemplo legítimo de desvario.
Não havia muitos sujeitos no bar, mas ficou evidente o incômodo que a estranha causara. O mau cheiro às narinas e a aberração que provocava aos olhos não apeteciam os estimados beberrões presentes, alguns aos poucos se puseram para fora com repúdio. Ninguém, em sã consciência, se sentiria aconchegado com a companhia de uma velha pirada e fedorenta. A presença dela tornou pesado o ambiente, o cheiro de comida caseira com cerveja misturou-se a um clima de fedor e escárnio. Desde cedo aprendemos a nos esquivar de pessoas bizarras, principalmente quando estas revelam a miséria cancerígena instaurada fora de nós. Aos que ficaram coube ou a zombaria, ou negação à figura da senhora, talvez, para não provocar na louca o ímpeto de uma aproximação. Dois homens que saíam puseram na mão da pobre umas moedas. Dar qualquer miséria a pessoas que parecem depreciáveis, revela-se um gesto piedoso e, com isso, aliviamos o peso da culpa que a penúria do outro nos causa.
O professor, porém, não conseguiu desviar os olhos da mulher, e ela, como se comungasse da simpatia daquele olhar, aproximou-se e, entre a vergonha e boca murmurante, ressoou sua voz fraca: “Tenho fome e sede”
Tio Regi, ao ouvir estas palavras, associou a súplica à de Cristo na cruz. Não teve pena, mas compaixão pela pobre senhora clamando somente por pão e água. Puxou uma cadeira plástica para próximo de si e convidou-a para ocupá-la. Isso não agradou o dono do estabelecimento, que sacudiu levemente a cabeça em sinal de censura. O professor podia ter pedido outro prato, o que já seria absurdo, mas, inacreditavelmente, ofereceu o seu à dama. Ergueu-se e exigiu mais um copo, encheu de cerveja e brindou à companheira inesperada. A reação do proprietário foi de indignação, como podia o professor sentar-se com a doida, comer da mesma comida. Ela mastigava com fúria os pedaços de charque, como quem não pusesse algo há dias na boca. Entretanto, mantinha um olhar contemplativo em direção ao professor, parecia enfeitiçada pelo gesto de humanidade. Engoliu ligeiramente toda a refeição e, após, olhou desejosa para um moço que, estendido no balcão, tragava um Calton. Tio Regi enxergou deleite no olhar dela e exigiu um cigarro ao dono do bar, que negou a reivindicação afirmando não vender a retalho. O professor, a contragosto, mandou trazer uma carteira.
Quase não trocaram palavras, ficaram longamente se olhando. No semblante da mulher, existia uma porção exagerada de gratidão misturada a espanto. Ele examinava cada atitude dela, então observou algo inacreditável que por descuido não notara. Em meio ao conjunto de imagens desatinadas que era a mulher, não reparara que segurava firmemente uma flor, enlaçada nos dedos e recostada na perna esquerda. Uma flor! Provavelmente de plástico. Naquela instante, o professor de química esqueceu as tabelas e viu a matéria da poesia naquela senhora. Sua esquisitice não lhe pareceu mais aberração, mas o desenho de uma pessoa despedaçada. A flor era o retrato de quem era ou fora aquela mulher.
Os olhos do mestre se abriram ainda mais, começou a divagar. Imaginou a vida que a mulher tivera, os filhos, os netos. Qual acontecimento terrível a tivera colocado naquela profunda comiseração. Quanto tempo aquela flor a acompanhava, talvez, meses ou anos. Ela tinha o coração puro. Sim! Só um coração delicado podia carregar uma flor com tanta firmeza. A mulher segurava um pedaço de seu passado, temia que alguém pudesse lhe roubar o único símbolo de sua delicadeza. Agora era pedinte, era da rua, lançada à sorte de estranhos, ao riso dos sórdidos. Essa convicção aproximou o professor da mulher, o trouxe para dentro dos pensamentos daquela idosa, sabia que aquela mulher era uma fina flor, havia frutificado. Mas agora padecia ao calor do sol e a secura do chão. Suas pétalas murcharam. Aqueles lábios bem vermelhos, as vestes impróprias eram a matéria consumida do brilho que a vida apagou.
Tio Regi não teve dó. Compartilhou caridade. Ele, professor cientista, um retrato de profunda racionalidade; ela, a pintura da sociedade caótica em profundo surto. Notados os contrastes, aproximou-se ainda mais da mulher, numa aura de afabilidade, muito perto, bem perto mesmo. Pôs as mãos sobre a flor, ela estremeceu e, assombrada, se esquivou centímetros. Tio Regi, então, magicou um beijo na face pintada e suja da companheira. A idosa ficou segundos imóvel, perdida naquele carinho improvável. De repente, num arranco, a doida levantou e, sem qualquer agradecimento, saiu tropeçando velozmente entre mesas, dispersando xingamentos.
O professor estava absorto e tomado de encanto. Encanto. Sensação que inebria a carne do homem e desordena a razão dos cultos e notoriamente normalizados. Tio Regi ficou alguns segundos perdido nos pensamentos sobre sua companheira. Depois, olhou ao redor, e notou que havia se tornado o centro das recriminações. Todos concluíam: o professor pirou!
Aquele ambiente familiar se tornara hostil. Levantou, pediu a conta e foi ao banheiro. Quando voltou, chocou-se com uma descoberta extraordinária. Na cadeira, estava a flor, objeto de tanta estima da senhora. Pagou a dívida, e excitante enlaçou o artefato firmemente entre os dedos. Não saiu, o bar o cuspiu. Lá fora, sentiu-se à vontade. Parou e olhou para os lados à procura da mulher. Aquela senhora não abandonaria sua flor. Tio Regi compreendera tudo. Era um presente. Agora a flor era sua. Não a perderia por nada, tinha de protegê-la, de cultivá-la sempre consigo. Tinha agora nas mãos a inigualável flor, a flor de uma vida despetalada.






