Quem não muda, não repara as tantas paisagens que se apresentam a nós a todo instante. Tudo muda na mudança de foco, o que define a mudança é a direção dos olhos. O que define o tamanho do afeto não é a soma dos carinhos, é a febre da saudade, febres são sinais de alguma ausência.
Só algumas sensações permanecem do mesmo jeito. Filosofia? Há filosofia em tudo que se quer compreender. Nada é exatamente como foi nem o corpo, nem as emoções, nem a mente, nem os gestos de amor. O humano celebra, sem ver, o rito da metamorfose cotidiana. O dia-a-dia é a corrente dos mutáveis, o banquete das representações. Todos nós temos desempenhado um papel no teatro da existência, não sabemos qual representação nos cabe, se somos artistas ou fantoches. Buscamos o riso e nos precipitamos nos dramas. Debatemo-nos nas cenas de culpa, nos episódios comoventes da paixão. Mudamos. Passamos. Estamos sempre partindo, viagem longa rumo ao desconhecido.
Pagamos a passagem e subimos no trem, não sabemos se há paradas obrigatórias nem se há alimento para todo o percurso. Sentimos sede, sentimos enjoos e dores pelo corpo. Em nosso vagão, viajam tantas pessoas, se revezam, algumas raras ficam mais tempo. E em cada segundo existe um pedaço de uma eternidade passageira. A falta de companhia nos torna carentes de afeto, carentes de palavras e dedos. Vez ou outra, temos álguém pra conversar, temos também na bagagem agasalhos de sobra, ainda assim sentimos frio.
No trem, mudamos de lugar, olhamos pela janela, paisagens passam despercebidas, outras tantas permanecem. Dormimos na poltrona, babamos na camisa branca, caminhamos pelo corredor. Às vezes, alguém senta ao nosso lado por algum tempo, depois muda de assento, ou muda de vagão, ou se cansa e se joga nos trilhos. E toda mudança é racional se regida pelo tempo do esquecimento. Todo amor é sucedido ou precedido por outra forma de amor. Toda mudança decreta o fim de algum sinal de vida. O fim de um abraço, de uma piada, de um sessão de cinema, há sempre uma finalidade incrível em existir fim para todas as coisas. Quase tudo precisa de um fim para ter sentido. Escrever um livro é a magnífica operação de criar, mas ele não pode ser publicado sem desfecho. Depois do encerramento de uma jornada, virá outra, mas curta, mas longa talvez. Há o tempo de esquecer e o tempo de lembrar. E entre estes dois tempos, o que mais se avoluma é o tempo das esperas. Esperança é o vício de quem se embriaga de sonhos e prefere, no lugar de olhar a paisagem, fechar os olhos e imaginá-la. Esperar chegar a algum lugar, esperar alguém entrar e depositar risos em nosso caminho e depositar de novo o sol nas madrugadas. Esperar sem perecer é exercício de construir palácios sobre ruínas. Tempo de lembrar e de esquecer. Não nessa ordem, não que exista uma ordem para tempos. Normalmente o lembrar sinaliza a dor ainda presente, e o esquecimento a dor que partiu. Mas, às vezes, a inversão revela a capacidade que temos de mudar a lógica do tempo. Esquecer pode ser a dor intensa de ficar vazio e lembrar pode restaurar a grandiosidade de uma alegria que não se tem mais. Isso mesmo, mudança significa renovação, mudança significa adentrar cenários virgens ou reformar a casa conhecida. Mudança tem a ver com começar de novo a cada desfecho, de pôr ponto final na interrogação, de colocar reticências em exclamações. Há tanta desordem no duelo entre tempo e coração. O tempo das confusões é o tempo da vida. Tempo acima de todo tempo. A solidão costuma resgatar memórias perdidas no passado. Não existe passado para quem reconhece a felicidade nos dias de agora. Não existe presente para quem assiste às cenas de outrora com demasiada nostalgia.
Sorte nossa, há sem dúvida o tempos de flores, uma estação. Tempo de cativar a presença, de sentir o percurso intenso dos desejos, tempo de saciar a saudade. No entanto, existem conspirações, desajustes que repercutem em descobertas infundadas sobre o amor. As teorias do sentimento tão óbvias, tão fáceis de manipular, e que configuram os elos do emoção, desenham a benquerênça romântica, mas infelizmente tão impróprias à alma humana, tão possíveis de fragmentar a alegria.
Das visões desta viagem, ficam as mais comoventes: a maior alegria, e intensamente a maior tristeza. O tempo da lembrança é a matéria-prima do presente. Mas toda lembrança um dia desemboca no tempo do esquecimento. O tempo de esquecer anula o tempo do contentamento e resgata o tempo do cansaço. A paciência é a única espada capaz de vencer o cansaço. Não importam as longas demoras diante do tempo das descobertas. Nada vale o desassossego, a paz um dia vigora. Danem-se os descréditos dados a nossa pouca sabedoria, somos feitos de pensamentos refeitos. E mudamos de ideias como quem muda de sapato.
Nesta longa viagem, o maquinista nos guia ao imprevisível. Há perigos, há cansaços de morrer, a chegada é incerta e o medo, inevitável. O tempo é apenas a impressão de que os dias mudam, os dias são todos iguais. Somos nós que alteramos o olhar. O tempo está no comando e nós estamos com ele, existem tantos cenários lá fora, mas dentro o vagão é o mesmo espaço de sempre.






