Trabalho…
quando escrevo um poema
trabalho…
ofício demorado e braçal
trabalho…
sigo o itinerário poético,
tecelão de mãos tarimbadas,
versus o verso - adversário-
matéria rústica no tear
eu, vice-versa, a me tecer.
meu poema, às avessas,
textura dos meus dedos,
subversivamente,
é ofertado às tuas pálpebras
e tu te fechas, severo,
ao tecido da minha literatura
- impenetrável pano.
lá fora, na rua,
encontro um poema industrializado
produzido em grande escala
pela indústria da comercialização literária
– liquidação artística –
o poema com código de barra
colore-se, plastifica-se e estende-se
pelas prateleiras dos supermercados
nas bibliotecas grandiosas do shopping vizinho
supervalorizado nas vitrines chiques
onde se ganha autógrafo e café-expresso
pausa! um transeunte passa
encanta-se, bestifica-se, ilumina-se
e adquire, virtuosamente,
a lustrosa peça da poesia industrial
cobrirá a cama com ela?
dormirá sobre sua superfície artificial?
a economia funciona assim:
o literato-investidor
avalia a produção em série do poema-tecido
elege os mais comerciais, estoca os mais populares
e importa a matéria prima a preço de banana
depois compra do exterior a melhor vestimenta
feito com o tecido bruto exportado
desdobremos então o tapete para o novo plausível
desfile da literatura contemporânea!
assim os críticos-comerciantes dão lógica ao ilógico
cobrem o corpo da matéria sem matéria
vendem, negociam, reproduzem literatura!
não suporto mais poemas que se vestem para o mercado
para as convenções, poemas que cabem na moda
poemas para o bolso-gosto dos clientes mais desataviados
poemas-trapos atados às linhas da incompostura
não suporto mais a arte dos alfaiates sem mãos
não suporto mais os dedos que cutucam os poemas
para desenhar vestes promíscuas…
a ciência dos negócios
não entende o trabalho da literatura
quer explicar o valor da formiga
que não pensa na labuta.