sentido

1

Postado em Poesias. Por Geovane Belo. Em 29 de agosto de 2010.

o amor é qualquer coisa sem sentido: remédio que nos infecciona.

o amor é qualquer coisa sem sentido: caridade que nos rouba de nós mesmos.

o amor é qualquer coisa sem sentido: poesia triste, mas belíssima, belíssima.

o amor é mesmo qualquer coisa sem sentido: uma maneira de esperar sem muita fé.

por que não ser qualquer coisa previsível, calculável, sensata como tantas outras coisas?

amor é sentimento sem nome, efeito sem causa, ciência sem verdade.

amor é palavra que se repete todas as vezes que as palavras falham,  faltam ou se escondem

amor é a coisa mais sem sentido do mundo

mas o sentido do mundo é isso:

algumas coisas essenciais não terem qualquer sentido.

Presságio

0

Postado em Poesias. Por Geovane Belo. Em .

Tenho pressa de ser seu,

não sou muito,

mas sou ágil.

Poesia de uma verdade ainda maior

1

Postado em Poesias. Por Geovane Belo. Em 16 de julho de 2010.

Os amigos são o ouvido

do coração

Uma poesia imensa

3

Postado em Poesias. Por Geovane Belo. Em .

A única alma que me conhece

nunca me tocou

antipoesia

2

Postado em Poesias. Por Geovane Belo. Em 4 de maio de 2010.

minha poesia não tem certidão

veio sem estilo, sem atitude

veio porque veio

tiro no escuro

mosquito no ouvido

 

minha poesia

beijo sem afeto

palco sem aplauso

rito sem fé

 

minha poesia

filho sem registro

voz sem requinte

 

folha embolada no lixeiro

cachorro solto na praça

 

minha poesia

metáfora chula e desbocada

poesia pueril sem lugar no sofá

odeia recitais

odeia ismo de escola

odeia horóscopo

odeia poeta boçal

 

minha poesia

rima pobre, vista embaçada

verso branco no escuro

penúria culta

 

minha poesia

já disse: minha!

feita pra ninguém

feito de ninguém

poesia sem grupo 

desnível de moral

minha poesia sem padrinho

o professor não leva pra sala

a mãe não lê pra ninar o menino

não se enfia no livro embaixo do braço

 

minha poesia sozinha

viúva desamparada

menina virgem e feia

parto sem mãe, trepada sem pai

nasceu sozinha de si para ser de si

 

minha poesia minha

automóvel que não se move mais

confessionário sem perdão

divã que não escuta não aconselha

amor que não amola o coração,

minha poesia não emociona

não critica, não se vangloria

sobrevive de inglórias

sem editora sem menção honrosa

não rima coração e emoção

acha isso clichê

mas  tudo é clichê

minha poesia rima por acidente

rima por falta de opção

 

(poesia de fins escrotos!)

verbamar

20

Postado em Poesias. Por Geovane Belo. Em 10 de abril de 2010.

amar no infinitivo
não se conjuga
verbo sem tempo
nem modo

no presente
a primeira pessoa
se confunde com
a segunda
e, às vezes,
uma terceira
pode atrapalhar
a conjugação do futuro

amar é um indicativo
de uma ação irregular do ser
admite a ativa ação
dos sujeitos
mas não funciona
com os agentes
na passiva

amar pode ser defectivo
no singular, faltar uma pessoa
pode até permitir risos e tônicas conjugações
amar não tem conjectura
funciona apenas quando
os dois formam uma locução
no plural

o pior é amar no subjuntivo
dúvidas, imprecisão…
amar no imperativo
regras, súplicas…

amar é verbo de emprego complexo
mas, se as desinências marcarem cada pessoa
E eu e tu coubermos na mesma oração,
o predicado da vida pode ter algum fundamento

obs.: verbamar é transitivo direto

Esta tarde

0

Postado em Poesias. Por Geovane Belo. Em 15 de janeiro de 2010.

O que houve com esta tarde?
Há pouco ritmo no relógio do pulso
Há pouca gente nas ruas do mundo
Há pouquíssimas lembranças na memória deste instante.
Lentos, os passos se precipitam…
Rudes, os pensamentos escoam
como a chuva ligeira no asfalto…
Esta tarde tem a cara de um poema
que pairou rapidamente a superfície da mente
E se depositou no vão do esquecimento
Esta tarde cheira diferente, ama diferente, pulsa diferente
Esta tarde é um longo ensaio de desencontros
A vida adormece na frente da tevê
e há lamúrias e ausências sem identidade.
Esta tarde viúva não sente saudade,
Não sente pesar, não reflete, não titubeia…
Esta tarde é qualquer coisa que não compreendemos!
Qualquer enigma e melancolia, qualquer metáfora esquecida,
arrasta-se num espaço melódico de carências não identificáveis
Esta tarde é o intervalo
entre a falta de amor
e a falta de vida.

te amo tanto

2

Postado em Poesias. Por Geovane Belo. Em 16 de dezembro de 2009.

te amo tanto

e não considero

uma ventura amar

tanto e a tal ponto

carecer de amor,

sandice de pernas e afetos…

sei que te amo tanto

e me arrisco nesse

risco de palavras fragmentadas,

dilapidadas nesse combate:

eu versus a ciência amorosa

eu versus uma solidão destoante.

te amo tanto

que na negação desse amor

gasto um tempo

da vida minguando:

amar amar amar

 

sei que te amo

tanto que,

te amando,

perco a sutileza

na penúria do amante

anulado, no valor do amado,

no palor do choro mudo, minguado

no calor de quem, irrequieto, se deita

e não contrai o sono da sobriedade

compreendo que te amo

sem saber o que faz do amor

uma justificação da vida

E inapto, agrego

emoções precárias

na cama das angústias diárias.

fadigas e sobras, penúrias e demoras,

fiascos nessa bobaloide 

incompostura:

amar amar amar

 

te amo

tanto e canto

o amor cortante, o estorvo,

o tempo esvaído e recomposto

tolas condutas, coisas miúdas

amor de fissuras que me repartem

afeto que dói no seu tilintar

te amo tanto

e repito te amo tanto

porque embora eu ouse

outra forma, outro termo

haverá a mesma coisa

fútil, a mesma declaração e pieguice:

amar amar amar

 

te amo tanto

e é um absurdo

que eu não me fadigue

e não fragmente esta alma

nessa consignação hedionda

e enfastiada de tua boca

te amo tanto que rio comigo

do meu descuido, do absurdo,

dessa falta  de mesura

falta de amor tolhido

que embrutece, enruga  

amor que nulifica e finca raízes

amor-compulsão, desfiladeiro,

condimento, traço oblíquo,

hastes que desabam sobre o piso

amar amar amar

 

te amo tanto

sem paradeiro

feixe de impiedosa chama

rala, tênue e opaca

amo tua gravidade

amo teus repulsivos modos

amo o amor sem balizas

que catalisa os danos

e não repõem destroços

te amo tanto e me contamino

dessa peste, desse tanto…

fenda que não tapa

amar amar amar

 

te amo tanto

sem rédeas

sem anelos

amo tua distorção

teu desequilíbrio

teu olhar dormente,

tua incomunicabilidade

amaria até a literatura desse amor

se fosse possível denotar

sua irrealidade

te amo tanto

e amor é uma fraudulenta presunção

te amar, corrente abstrata,

e o amor, alforria não documentada,

assim mesmo amar

sem tão pouco

compreender

compreender

quando não for possível

amar

te amo tanto!

mas o que faz

do amor uma liberdade?

Amar? Amar? Amar?

trabalho antipoético

2

Postado em Poesias. Por Geovane Belo. Em 23 de novembro de 2009.

Trabalho…

quando escrevo um poema

trabalho…

ofício demorado e braçal

trabalho…

sigo o itinerário poético,

tecelão de mãos tarimbadas,

versus o verso - adversário-

matéria rústica no tear

eu, vice-versa, a me tecer.

meu poema, às avessas,

textura dos meus dedos,

subversivamente,

é ofertado às tuas pálpebras

e tu te fechas, severo,

ao tecido da minha literatura

- impenetrável pano.

 

lá fora, na rua,

encontro um poema industrializado

produzido em grande escala

pela indústria da comercialização literária

 – liquidação artística –

o poema com código de barra

colore-se, plastifica-se e estende-se

pelas prateleiras dos supermercados

nas bibliotecas grandiosas do shopping vizinho

supervalorizado nas vitrines chiques

onde se ganha autógrafo e café-expresso

 

pausa! um transeunte passa

encanta-se, bestifica-se, ilumina-se

e adquire, virtuosamente,

a lustrosa peça da poesia industrial

cobrirá a cama com ela?

dormirá sobre sua superfície artificial?

 

a economia funciona assim:

o literato-investidor

avalia a produção em série do poema-tecido

elege os mais comerciais, estoca os mais populares

 e importa a matéria prima a preço de banana

depois compra do exterior a melhor vestimenta

feito com o tecido bruto exportado

desdobremos então o tapete para o novo plausível

desfile da literatura contemporânea!

 

assim os críticos-comerciantes dão lógica ao ilógico

cobrem o corpo da matéria sem matéria

vendem, negociam, reproduzem literatura!

 

não suporto mais poemas que se vestem para o mercado

para as convenções, poemas que cabem na moda

poemas para o bolso-gosto dos clientes mais desataviados

poemas-trapos atados às linhas da incompostura

não suporto mais a arte dos alfaiates sem mãos

não suporto mais os dedos que cutucam os poemas

para desenhar vestes promíscuas…

 

a ciência dos negócios

não entende o trabalho da literatura

quer explicar o valor da formiga

que não pensa na labuta.

 

ELO

1

Postado em Poesias. Por Geovane Belo. Em 22 de outubro de 2009.

Eles se cruzam no elevador
olham-se com mágoa
juram ódio
o rancor sufoca a vida
e eleva a dor

Numa outra era
ele era ela
ela era ele
os dois
um elo
uma cor

que belo
era esse universo
essa unidade
esse unificador

o amor une verso
o amor une idade
une           e                    separa
o amor une e fica a dor