De vez em quando, eu penso na vertigem desse empenho: escrever. Dedos esgueirando-se sobre a folha, tentáculos entre ausências, saberes e pretensões. Penso no tempo desperdiçado nos meus exercícios de solidão, nos tantos exílios. O amor me ensinou a semântica da tristeza. Bonita a palavra tristeza. O triste está a um triz da beleza! Melhor ainda é escrita a TRISTEZA, tatuada no papel.
Como pode um adulto, em sua gravidade, gastar tanto tempo revirando palavras que agigantam sua tristeza? Insatisfeita satisfação! Escrever. Não sei até que ponto a maturidade de um homem pode torná-lo poeta, e considero quase impossível um poeta reconhecer-se humanamente maduro, sóbrio, austero. O tempo lhe tira o vigor, a poesia lhe tira as coordenadas, incute-lhe o temperamento hostil, o despautério. A idade, o emprego, a paternidade não combinam com poesia. Escrever restitui a adolescência desvairada, repõe suas doses de fuga, devolve vigor ao corpo sem agilidade, mas aprofunda rugas, enobrece os vermes da solidão. O ofício (quando se permite ser ofício, sina ) o aproxima da desordem do amor. O amor versa suas rimas no peito dos loucos, dos prenhes de filosofia, dos tímidos, dos senhores metódicos de espírito desalinhado. Escritos doem, são rachaduras da alma, íntimas faltas em falas.
De vez em quando, nesta caminhada, entre o desejo e o tédio, o amor me pareceu ilícito, roubou minha lente, minha genialidade, jogou meus vasos na parede. Espatifei-me. Li no amor a literatura dos estilhaços. Encontrei-me. Eu, o artesão subjulgado, o menino de coração descalço, o jovem recortado, o homem esfacelado. Há algo que não sei me arrastando para essa ideia, essa gravidade. Guardo comigo o temor dos cortes. Conservo precipitações de um passado de sangue, cicatrizes, acnes, canções marcadas, insepultas mágoas. É normal cativar grandes angústias como se colecionam fotografias? Essas pequenas vaidades do sentimento combinam com meu estilo. Tristeza é moda no atelier do meu juízo. Meu tecido de ideias é desenho de dores em linho. Parece loucura alinhar palavras em folhas em busca de cobertor. Mas, ah! É lindo o sofrer na página, embora fria a sensação na pele.
De vez em quando, muitas divagações visitam meu pensamento e se apropriam do que podia ser calma, de qualquer pano ao redor desta alma. De vez em quando, acredito que é cedo demais pra me abandonar, desistir do meu sangue, impedir o destino de me fazer florir. De vez em quando, muitas vezes talvez (perco-me na temporalidade esvaída), eu me interrogo, me embalsamo, vacilo nos verbos, confundo pessoas nos queixumes, nos meus desejos bizarros de estar além.
Não há exatamente nada mais impreciso, mais sofrível que prejuízos deixados pelo chão, nada mais fixo do que carícias riscadas, que quadros em branco no meio de tintas, que uma criança em pranto, sem mimos, com adjetivos de amor perdidos na memória. Agora eu sei, de vez em quando é tempo demais. Vez em quando é imprecisão que me atraiçoa, que reverbera num instante, pausa no ritmo do infinito.
É de ti que eu lembro de vez em quando. Menina de olhos rasos, tão miúdos e sisudos, menina de seios tão pequenos e boca tão crua, é por ti que friamente eu deliro e ardo de fissuras. Tua lembrança é o intervalo de uma ilusão na eternidade ou uma espécie de capricho em que me precipito e naufrago. Vez ou outra, eu silencio com teus gritos doces no pensamento. O vasto texto escoa, livre, resoluto, e não mais me devasta.
Esqueço-te em pedaços de mim. Outras paixões cumprem a sina de resgatar alguma felicidade. É a imprevisibilidade do pensamento juvenil: mudar o ritmo dos amores em ensaios de esquecimento, fazer do papel o espaço em que o coração deposita o tempo. Como é gostoso esquecer as dores e beber licores! Como é esplêndido viver depois de esquecer a vida deixada lá fora! Pensamos: não há dor que não sare, não há amor que não mude de casa ou de nome. Mergulho assim em outras formas de me perder. Outros afogamentos. Outras águas mais tênues.
Mas é aí que, vestiginosamente, me vem de novo uma repentina e voraz teima, uma nebulosa carência sem lugar, um torpor, uma inquieta vontade de abraçar lembranças antigas e deitá-las num caderno. Aí eu balbucio teu nome, teu nome tão sereno que combina com minhas loucuras, com minhas vontades imaturas, que tem tudo a ver com minha inútil procura. Teu nome que dá carne a minha tristeza.
Teu nome no meio da noite acende o meu texto, e me apaga do mundo.