Que as quedas não fraturem as esperanças e as grandes verdades não nos tirem a capacidade de mudar! Que o medo não cresça a ponto de empobrecer nosso espírito e o tempo se ocupe de restaurar os espaços dizimados pela dor. Que o vento não cesse seu sopro e carregue tudo que precisa seguir. Que as palavras venham sempre depositar a fortaleza do amparo, o consolo do refúgio, a sabedoria redentora da poesia. Que o silêncio também estabeleça a reconciliação entre palavras e memórias esquecidas dentro de nós. Que as amarguras não apaguem a fé, não engradeçam o peso da solidão sobre o ritmo dos sonhos. Que seja contagiante cada reencontro, que seja mágica, e não angustiante, cada espera. Que a música nos faça chorar quando tivermos vontade, mas que ela também embale nosso sorriso, mova nosso corpo de criança crescida. Que tenhamos sempre alguém ao lado para ofertar um abraço generoso, um conselho rejuvenescedor. Que, a cada dia, aprendamos: a inteligência está na maneira de olhar e entender, de amar e cuidar, de errar e pedir desculpa, de educar e dar exemplo, de ser amigo, prestativo e afetuoso até mesmo na indiferença. Que as pessoas saibam reconhecer nossas capacidades e apontem, com cautela, nossos limites. Que nossos exageros, chiliques, tranquinagens sejam relevados como uma piada nada maldosa. Que o desejo de vingança vire perdão, que o desejo de acusar vire direito de ouvir, que a inveja vire admiração. Que as religiões não ensinem a discriminar, separar, mas perpetuem a bondade, a misericórdia. Que as mágoas virem uma nova chance. Que saibamos cuidar de cada canto da casa e, se ela ruir, que tenhamos braços e força para reerguê-la. Que os amigos sintam saudade, tornem-se o escudo contra os desafetos e reconheçam os traços de tristeza que, às vezes, são desenhados em nosso semblante. Que nossa maturidade e discernimento não nos projetem para fora do mundo porque a genialidade é um conceito provisório e pessoal. Que nossa família seja sensata e, mesmo quando existir truculência e rigidez, que prevaleça o amor fraterno e o diálogo. Que o peito se tranquilize e alguém surja, renove nossa história, e o final feliz não seja mais coisa de cinema, seja coisa de quem crê na vida.
Postado em Crônicas. Por Geovane Belo. Em 23 de julho de 2010.
O fim de uma fase é uma prova de fogo. Coloca-nos diante da tragédia da vida: passar todo o tempo tecendo elos duradouros, depois ter de desfazê-los um a um, linha por linha, árdua tarefa de destranças laços.
Quem termina um relacionamento tem de enfrentar uma espécie de morte de si mesmo, até mesmo porque dificilmente, para ambos, o fim coincide com o término do sentimento. A maioria dos casais rompe numa época em que, pelo menos um, ainda se nutre do amor. Laços afetivos, quando podados antes do tempo previsto, costumam deixar marcas quase incicatrizáveis. Uma coisa é você viver com alguém até o último suspiro da dependência, até o amor dar tudo o que podia de si, outra é você deixá-lo partir quando o coração ainda não desteceu os bordados da paixão.
Dói ver as cenas do desenlace, dividir o cenário, o mesmo que compôs uma história e ter de fragmentá-lo, reparti-lo. Decidir o que fica com cada, quem leva presentes, filmes, objetos simbólicos, livros, algumas cartas, coisas secretas. A pessoa que vai não vai desacompanhada, leva sem nossa licença um modo de sorrir que a gente tinha, leva nossas manias, nossos chiliques repentinos, carinhos compartilhados, grandes confidências reveladas, malícias a dois, leva muito da nossa segurança, das fantasias, leva os álbuns de viagens e as discussões sem nexo…
Dói não participar mais dos hábitos, mudar a rotina, o papo no sofá, a conversa íntima sobre qualquer coisa, as preocupações durante o café, dói arquivar as esperanças e reconstruir os afetos. Dói sair pela porta da frente, entrada de todos os dias, lugar do bom dia e da despedida carinhosa das noites cotidianas. Dói saber que outro ocupará o seu espaço, haverá novas entregas, novas coisinhas miúdas para compor o quadro tão largo da sua falta. Dói saber que, depois de um tempo, você não será mais falta, talvez retrato de uma lembrança num passado irrecuperável. Dói o celular mudo, fazer as coisas de antes sem o olhar cauteloso, sem o cuidado e as regrinhas próprias do amor. O seu amor não pode mais ser chamado de seu, perdido o domínio, não há mais controle algum sobre as rotinas. O nome na agenda foi reeditado, perdeu o destaque e o encanto.
Dói saber que o desfecho é o prenúncio de que a vida segue assim mesmo, e a felicidade não é uma questão de pessoa, e sim de tempo. O outro terá tarefas a cumprir e, mesmo sem sua ajuda, cumprirá todos os ofícios que lhe cabem. Haverá o tempo do esquecimento. A pessoa amada, na distância, deixará o vazio dos afagos, e a mente se cumprirá de preenchê-lo novamente. E tudo será intenso como foi ao seu lado porque só nos permitimos amar no presente. Até quando não acatamos o elo perdido, não vivemos presos ao passado, é o presente que ainda revoga a vida de antes, o passado ainda reveste o hoje. Dói compreender que nossa existência repele a solidão e o outro não pode sofrer ininterruptamente nossa ausência. Quem você amou aprenderá a amar alguém, e sofrerá pelas mesmas miudezas, e será de outra pessoa como foi só seu. Ninguém nos pertence e a partida documenta a perda, aciona o recomeço.
Dói, dói mesmo. Mas depois a dor é serenizada, não é mais dor, é restauração. Temos de então vencer, acima de tudo, o egoísmo, dar espaço para aquele a quem quisemos tão bem se erguer, precisamos aniquilar a convicção de que só nós podíamos fazê-lo feliz. Temos de amadurecer, possibilitar a distância necessária para as angústias silenciarem, e que a felicidade possa novamente adentrar as casas divididas. A felicidade do outro não pode nos incomodar, não pode interferir na nossa nova jornada. Não devemos ter a pretensão de permanecer no outro, partir e deixá-lo deficiente, tristeza sem remédio, querer que o outro continue nos amando para alimentar nosso ego.
Na verdade, estamos sempre partindo, sempre desintegrando nossa matéria nas passagens do tempo. Amores partem porque “navegar é preciso”, e partidas são feitas de lamentação e saudade, fica algo nosso em cada porto, dor abstrata de se despedaçar e recompor-se em cada viagem. A pessoa que fica no cais, dali em diante também seguirá, mas por outra rota, novos mares, outras vistas, novas companhias, novas experiências, novas ilusões. Poderá olhar o passado e achar que foi feliz, mas procurará no hoje o território das flores.
A vida segue seu ciclo, o mundo gira em torno de nossos corpos suspensos, gira por meio das escolhas que conduzem o destino, conspira para enlaces e desenlaces, muitos injustificáveis, e precisamos de pés e de coragem para recriar a vida, senti-la neste instante e bordar em seu pano uma composição de amanhã muito mais belo.
Postado em Crônicas. Por Geovane Belo. Em 16 de julho de 2010.
Pus o coração de férias por algumas obviedades. Primeiro pelo cansaço e fadiga decorrentes do trabalho constante. Depois, o repouso era justificável pelo fato de a máquina humana não funcionar mais a todo vapor, necessitando de reparos, cobertura mais resistente. As precipitações e solavancos deterioram parte de sua estrutura e só a revitalização podia amenizar os desgastes do tempo, do mau uso, principalmente pelo mau uso e pela sobrecarga no trato com um instrumento tão delicado.
Pus o coração de férias. Ele que é, além de máquina, trabalhador rude e pouco instruído resistiu. Queria permanecer na labuta diária em busca de pão. Não acreditava em férias remuneradas. Como sobreviver sem cumprir as árduas tarefas, sem se debater no cumprimento dos ofícios? Foi obrigado a deixar a repartição, arquivar muitos papéis, transferir alguns afazeres para outros funcionários.
Pus o coração de férias. Obriguei-o a buscar um lugar fora da cidade. Distante das perturbações e agitações urbanas, bem longe das pessoas apressadas se acotovelando no centro. Podia escolher paisagens relaxantes, um casebre em Algodoal frente à Princesa do mar. O coração estava com estresse elevado, um pouco depressivo, demonstrando cansaço progressivo, falta de ânimo e baixa concentração. Podia se refugiar num sitiozinho no interior, restituir a paz dos tempos em que não havia tantas obrigações, tensões, tanta balburdia pra sobreviver aos desígnios do amor.
Pus o coração de férias. Uma alternativa seria um pouco de diversão. Praia, muito sol, embriaguez, mulheres seminuas, música bem alta. Quem sabe o calor de beijos sem compromisso descarregasse um pouco do enfado de viver. O coração podia se aventurar em paixões mais efêmeras, pequenos ensaios de ilusão, capazes de fazê-lo esquecer as intermitências daquele amor grandioso necessário para a manutenção da vida. Aquele que virou obrigatoriedade ou se transformou em tédio ou se converteu em desgastante espera.
Pus o coração de férias. Tive medo de uma pane total do aparelho de palpitação, de um defeito no regulador da alma. Tive receio da morte total advinda da fraqueza, da pusilanimidade do amor. Não sei por quanto tempo devo mantê-lo afastado das obrigatoriedades, das resoluções inescapáveis. O coração saiu porta afora, trôpego, sem rumo como menino expulso de casa. Fará bem a ele essa folga para se recompor. Pus o coração de férias para salvá-lo, para não perder a serventia. Pus o coração de férias para esquecer quem sou.
Postado em Poesias. Por Geovane Belo. Em .
Os amigos são o ouvido
do coração
Postado em Poesias. Por Geovane Belo. Em .
A única alma que me conhece
nunca me tocou
Postado em Crônicas. Por Geovane Belo. Em 9 de julho de 2010.
Muitos perderam bem mais que uma copa, perderam a ilusão de que a vida era isso: um palco de chuteiras mágicas tocando nosso coraçãozinho besta. Perdemos a ilusão de que não havia mais problemas nem trabalho, nem fome. Nós tínhamos tudo e tudo nos era permitido, éramos como gladiadores do mundo moderno, não importava o lugar que estivéssemos: nos bares, nas ruas, nos grandes edifícios, na roça, nas favelas. Tínhamos o mesmo valor e poder, por toda parte. Éramos armas imbatíveis de bandeira na mão e de chuteiras em sonho. Tudo por que havíamos esquecidos de que a vida é essa coisa que ficou agora.
Vi homens de verdade aos prantos, uma nação em desalento… Todos haviam esquecido de tudo pra sonhar com a maior conquista das nossas vidas: uma estatueta de ouro na África do Sul. Mas, poxa, isso nos tornaria ainda mais perfeitos, deixaria nossa vida de meninos pobres mais feliz, fortaleceria nossa alma cheia de marcas existenciais… Mas que pena, mas que droga! Estamos acabados, e a derrota na copa parece pior que a de toda a nossa história, pior que a seca, que as mortes por terra, que a prostituição, que as dezenas de casos de corrupção, pior ainda que as chacinas, os assassinatos midiáticos. Talvez ocorram dezenas de rebeliões agora, os presos exigiram ver a copa em telas planas, mas, neste instante, devem achar que seria melhor ter pedido alguma bolsa nova pro Lula, uma visitinha da Gisele Bianchi, tudo seria melhor que esse joguinho f…, o time amarelou, melhor, alaranjou.
Eu, também decepcionado, desolado, como tantos outros, não posso esconder a minha lástima e desgosto. Mas o mais lamentável é estar assim comigo mesmo, por ter caído na real e ter de ver o mundo como ele é: sem dinheiro no banco, sem mulher e sem nenhuma pena revigorante, nenhuma hipótese bem projetada de desejo.
Alguns até estão dizendo: “nós deixamos mesmo eles vencerem, nós não podemos ganhar sempre”. Mas, na verdade, nós acreditávamos que podíamos sim, a derrota não foi feita para nós. Essa taça era nossa, o céu dizia isso, o polvo, os búzios, as bolas de cristal e principalmente a voz rouca e ‘globalizada’ na tevê. Meu Deus, essa conquista faria com que nos sentíssemos insuperáveis, intransponíveis; os outros seriam bichinhos afoitos lambendo nossos pés de estrela.
Contudo, o fim precoce dessa grande quimera diante da galáxia inteira, que se borrava de medo da gente, levou-me ao maior dos desenganos, levou-me a certeza de que toda uma nação e eu sofremos mais por uma derrota na copa do que poderíamos sofrer por toda uma vida sem dignidade, sem justiça e sem amor. Nós, há alguns dias, éramos nacionalistas, dormíamos com a bandeira, pintávamos a cara, enfeitávamos as ruas, as casas, assoprávamos as vuvuzelas. Agora, o que resta é revolta, é esquecer e voltar à luta pela sobrevivência. Talvez, daqui a quatro anos na nossa casa, nós consigamos de volta a supremacia futebolística, isso se estivermos inteiros até lá, os estádios saírem do papel e próximo técnico levar o Ganso, o Pato e todo o resto do galinheiro.
Postado em Crônicas. Por Geovane Belo. Em 20 de junho de 2010.
Preciso de um texto limpo e bonito. Nada de amarguras, faltas acumuladas, sombras, embriaguez. Hoje preciso de um texto inocência, beijo na bochecha, um texto amor de criança. Quero-o agora alegremente pulando dos meus dedos, escorregando no tobogã da palavra. No corpo nenhuma melancolia, nenhum desassossego, nenhum pesadelo adulto. Preciso controlar hoje a tristeza íntima da literatura. Preciso e quero ver desaguando de mim um texto rio, texto cachoeira, lágrima de sorriso, escrito molhado, H2O romântico.
Preciso de uma voz líquida, sem as duras angústias, preciso trazer a natureza para compor minha palavra, diminuir os adjetivos, serenizar o vento, subir nos muros, abrir os braços, trepar nos galhos altos, colher as goiabas, correr debaixo de chuva e tomar banho nas biqueiras. Meu texto vai proclamar os olhos, a mão e o cabelo cheiroso que Ela tinha, o único papagaio que foi meu, o primeiro cachorro, o são Jorge preso na lua, a estrela Dalva cintilando em algum lugar lá em cima, falar como doía gostoso ficar à espera dEla, o que sentia ao lado da Minha Menina. Meu texto vai sentar suado na calçada, brincar pira, chupar manga com sal, jogar bola no terreiro, se esconder pra não banhar cedo. Vai mostrar como era tudo de lindo o sorrisinho dEla, a mania que Ela tinha de crescer e me deixar pra trás. Meu texto vai falar de boca cheia, e não vai esquecer o feijão preto, o bolo de macaxeira; e Ela, à mesa, mastigando ao meu lado os minutos, os quitutes, rindo alto com cara de gente grande.
Meu texto vai pra dentro de mim, vai procurar onde Minha Menina foi parar com aquele jeito engraçado de chegar comigo e me chamar de Seu Besta. “Não chora, Seu Besta”. “Já vou, Seu Besta”. Era gostoso demais ser o Seu Besta da Minha Menina, com letra maiúscula na frente, amar como Seu Besta e não pensar que o amor era uma droga de besteira. Preciso de um texto lindo. Preciso de um texto perfume, um texto flor, um texto margarida, um texto néctar, um texto beija-flor, um texto abelha, um texto mel, um texto dedo e língua no mel. Meu texto vai longe, vai recolher o passado e colocá-lo aqui no papel, vai guardar a seriedade paterna, o papo sobre nada com os amigos, a vontade de falar inglês, os cânticos da igreja. Meu texto vai glorificar os desenhos nas nuvens, a casa da avó, os embalos na rede, a risada graciosa das tias, o abraço bem pequenino dos primos, o tabaco mastigado do vovô, o jeito de dançar desengonçado dEla, o doce de Cupu, as tapiocas e as pupunhas quentes com café preto. Meu texto vai rezar as palavras decoradas ao pé da cama, as primeiras fábulas, os poemas mais queridinhos, o violão no sofá, a televisão ligada e a gente junto.
Desejo que meu texto surja dos pássaros e voe. Saia dos galhos molhados bem cedinho e conquiste o azul todinho. Desejo que renasçam palavras iguais a manhã, do tipo aurora, arrebol, alvorada, um texto sol quente, cheiro de manga, coco gelado, o bastante para ser lido e bebido à beira mar com cheiro de espuma, cheiro de suco de alguma fruta engraçada como carambola - lembranças do cheirinho doce dela. Meu texto vai tomar banho nas ondas, sentir a areia molhada debaixo dos pés descalços, o anseio doido varrido de amar e ser amado um dia nesta vida por Ela. Isso mesmo, preciso de um texto alegre e escancarado como o sorriso dEla.
Preciso de um texto com a imaginação de menino, as empolgações, a rabiola cortada, o primeiro verso escrito pra Ela - podia ter entregado - os aniversários cheios de criança estranha, a primeira bicicleta pra ir sozinho à escola, a vontade de Ela ir comigo na garupa à pracinha. Um texto assim todo metidinho, sem nenhuma teoria complicada. Preciso de um texto feito manhã de domingo, tranquilo, preguiçoso, lento, publicado num jornal de domingo sem sangue, por Deus, sem sangue. Um texto para cativar os olhos e saborear goles de chocolate, mordidas de pão com manteiga e queijo. Preciso de um texto que concentre a sutileza das horas lindas em que minha mente se ocupou de pensar nEla, amá-la tanto sem Ela nunca saber! Ela, Minha Menina, o texto que calou minhas palavras, nome perdido nos giros da infância.
Meu texto vai crescer amanhã, será de novo chato e triste como todo adulto. Se o celular tocar no trabalho, ainda posso imaginar bem na tela o nomezinho inesquecível dEla.
Postado em Crônicas. Por Geovane Belo. Em 12 de junho de 2010.
A infância é um território de imagens risórias. Quando lançamos o olhar para o passado, temos a impressão de que, além de ingênuos e esquisitos, éramos sozinhos. Começamos a experimentar a desolação própria da vida bem cedo. Nossas paixões de criança cativavam a gravidade do silêncio. Sentíamo-nos tolamente apaixonados e, no íntimo, conhecíamos a inutilidade do sentimento, a bobagem de querer a proximidade e sofrer com a distância. Amores assim demoram a findar seu curso, nascem e padecem dentro de nós. Amores não assumidos envelhecem meninos. Não declaramos paixões improváveis, tememos o fracasso declarado. Engavetamos o desejo, e ele nos corrói os papéis, os mapas, os poemas.
Numa semana em que tanto se fala de namoro, os sozinhos – abandonados, separados, iludidos, rechaçados, traídos, esquecidos - resignados em sua solidão diária, sentem-se alheios a essa coisa, dita natural ao ser humano, intitulada amor.
Os sozinhos namoram ternura e tristeza na falta que alimentam. Ir ao shopping sozinho, ir ao supermercado sozinho, às festas, aos aniversários de amigos, ao casamento dos parentes, aos jantares profissionais, às formaturas… é assombroso. E sempre lá encontrar, soberano, alguém exibindo sua mais nova conquista de amor. Arre! Há pessoas que fazem uma espécie de rodízio amoroso, enquanto outras mínguam. Falta de sorte, falta de empenho, de beleza, de simpatia, de atributos financeiros? E a maior falta de todas as faltas se avolumando no peito, restos de alguma lembrança, certas esperanças mofadas no armário do tempo.
O pior de estar sozinho é acreditar que a pior coisa do mundo é estar sozinho. Ora, o amor não é afeito a estratagemas, planos, porcentagens, não constrói projeto, não respeita decretos. Quando a demora desintegra quase todas as promessas, passa-se a conviver com um intruso na própria carne. A espera vira tormento, a solidão vira enfermidade.
Alguns sozinhos estão sempre acompanhados, reúnem paqueras, acanhadas paixões e amigos lhes sobram, consideram-se sozinhos pela ausência admitida do amor ou, pelo menos, pela falta disso a que chamamos ingenuamente de amor. Já os acompanhados muitos deles também estão sozinhos, partilham declarações e afetos, telefonemas e lembranças, mas engordam intimamente o desamparado, a viuvez própria de quem conjetura o amor, e não se vê recompensado.
Os sozinhos ouçam o consolo: “Os namorados são tristes”. Os sozinhos orem: “Os namorados são tristes”. Os sozinhos acrescentem: os namorados também são tristes. Carlos Drummond de Andrade foi capaz de dizer essa asneira. Exigiram explicações, queriam jogar pedra no Gauche mineiro. Ele, acostumado com pedras no caminho, repetiu: “Os namorados são tristes”. Os namorados, intrigados, pararam diante do adjetivo apontado para suas cabeças, acotovelaram-se na dúvida. A agudeza do verso atingiu a realidade impossível de ser dita, podiam negar, mas o peso da revelação produziu a verdade rotineira: “Os namorados são tristes”. Que bela asneira, poeta! Namorar todo mundo quer; sofrer não, obrigado. A namoração tem alegrias amenas, habituais, por isso a intensidade dos júbilos é abafada pela saudade dos prazeres intensos da solteirice abandonada.
O namoro é o momento mais precioso do afeto, queremos as trocas, os dengos, a companhia contemplativa e caridosa. Nada melhor que namorar! Beijar na boca, sexo, viajar junto, cinema. Verdade consentida. No entanto, esse julgamento é próprio de quem está sozinho, carente, desabrigado. Opinião de quem está fora de campo. Dentro da partida, a visão muda, quem está namorando descobre as complicações do jogo.
O envolvimento brota das qualidades (beleza, estilo, inteligência, simpatia, fama, profissão, conta bancária, carro…), ferramentas responsáveis pelo surgimento de um elo e pela sensação instantânea de felicidade. Ponto. Depois, a rotina lista suas discrepâncias: perda da liberdade, o cumprimento de horários, as discussões sobre tudo, a cobrança diária, os ciúmes sem controle. O namoro é a maneira mais contraditória de não ser feliz. Infelicidade desejada. Não é de hoje que o paradoxo é o recurso cativo do amor. Camões “é um contentamento descontente”. Almeida Garret “Este inferno de amar como amo”.
Dia dos namorados. Separadamente eles se amontoam nas lojas, acionam cartões de crédito, débito automático, cheque, crediário, empréstimo consignado. O valor do presente e o número de parcelas variam de acordo com o nível de afetuosidade e, principalmente, do status do ser amado. Enquanto isso, os solteiros se orgulham de não ter essas despesas, só que no fundo lastimam a solitária sorte. Só que os namorados não estão sozinhos nesse dia, sempre tem próximo um amigo descompromissado.
Na verdade, os sozinhos são a diversão e o infortúnio de quem tem namorado. Na escolha para confidente, sai na frente o amigo ou a amiga sem namorado, só ele é capaz de ouvir pacientemente e dar grandes conselhos. Alheio à prática, a teoria funciona com maestria. Um dos amigos solitários é, provavelmente, o mais divertido, tira sarro, conta piada e diverte os casais, só ele é capaz de ver os acontecimentos, registrá-los, recriá-los e possivelmente inventar muita história. O amigo sozinho pode ser meio desengonçado, meio inseguro, mas é perfeito para enviar recados, desvendar e guardar segredos. Há o amigo solteiro do tipo mentiroso, está sempre com vocês, mas vive contando vantagem, coleciona encontros que ninguém vê, aponta mulheres lindas com as quais se envolveu. Há o amigo solteiro PHD em segurar vela. Basta que você combine com o namorado uma programação e ele está lá, parte do cenário, vela da mesa de jantar, dedo na sobremesa romântica.
Namorar vale a pena sim, tem seus entraves, seus pormenores, mas ninguém consegue satisfação total nesta vida com ou sem alguém. Sabe essa coisa de não caber no mundo, essa procura de sustento, esse desajuste sem codinome, essa carência dispersa, essa falta de pretexto ou alento, essa fenda sem tampa, a tal vontade íntima de achar esperança fora da nossa casca. Somos bichos que pensam e complicam tudo. Nossa alma inquieta não suporta a serenidade, está sempre em parafuso. Pura loucura. Só conseguimos mesurar a saudade quando a distância nos abate. Só conseguimos amar absolutamente na falta.
Por outro lado, em uma época em que compromisso e fidelidade são coisas pré-históricas, quem arranjou um namorado que se preze tem mil motivos pra comemorar. Quem está sozinho cuide-se, estude, evolua, sorria, conheça pessoas, leia romances, veja filmes, viaje, pratique esportes, ouça boa música, vá ao teatro, economize um pouco, medite, dance bastante, não se alcoolize demais, descubra-se. Na falta de um amor, torne proveitosa sua liberdade e, impossível não dizer, seja um solitário sempre bem acompanhado. Quando a pessoa amada aparecer, encontrará a casa arrumada - os livros, a cozinha, os lençóis limpos, os projetos bem ordenados - será fascinante entrar e ficar.
Os inquietos passam a maior parte da vida à procura do que desconhecem. Os ignorantes gastam seus dias à procura do que acreditam saber. Ignorantes alegam sabedoria, riem das inquietudes humanas. Alerto: pessoas inquietas não são propriamente sábias. O conhecimento é território da ciência, não atinge o semblante das emoções. Reconheço, tenho como tantos a alma inquieta, e tudo que ignoro é o que sinto. E tudo o que compreendo, meu coração não acolhe.
Este coração, vítima fácil de tantas saudades, está aberto a coisas demais, está aberto a devaneios demais. Sim, às vezes, imagino a mão de uma namorada casual me levando por estes caminhos de agora, graves, despovoados. Alguém que, supostamente ou tolamente, pode trazer nos braços um resquício do que foi o mundo ou recolha minha vida em sua boca.
Aos poucos, tenho procurado abraçar a razão, apagar essas imagens adolescentes. Estou crescido, não é justificável colecionar pequenas amarguras, grandes epifanias que gênio nenhum escreveria. A genialidade é um princípio da loucura. Fernando Pessoa proclamou: “quanto mais nobre o gênio, menos nobre o destino”. Tenho medo do destino! Pode ser que a fortuna ou a fatalidade de um homem já esteja prevista, quem sabe um plano reserve minha sina. Como não sei onde ler meu acaso, posso começar um livro bem metidinho sobre meus dilemas, uns dirão, existenciais. Boa sorte!
Devo desviar meus caprichos de possíveis consolos, de possíveis ansiedades, de possíveis possibilidades sem hora. E esses pleonasmos, esses vícios improdutivamente queridos, o contrário de cada vício é uma virtude. E eu, o que tenho mais cativado? Cigarros, rancores, porres? Purezas, bondades e sobriedade? Nunca mais criei um neologismo, nunca mais encontrei um jeito de me encontrar. E os beijos furtivos que tanto me consolam, onde procurá-los? Bares, igrejas, boates, casas de amigos? Listo uma dezena de nomes no aparelho, todos parecem estrangeiros. Os amores não se cumprem na medida das procuras. Cada encontro é uma maneira de não se achar. Procuro, então, povoar ao menos a lembrança de alguma alegria. Alternativa vã de conquistar abrigo fora do presente. Desvendo, abatido, poucas esperanças em mim. Deveras nunca fui amado como queria, beijado como queria, feliz como queria. Na verdade, nunca fomos amados como queríamos. Bobagem crer que o passado seja a casa onde habitou nossa sorte. Criancice acreditar no amor como um troféu capaz de arrematar todos os nossos ideais.
René Descartes, em “As paixões da alma”, divide o amor segundo a estima que temos pela pessoa amada: quando estimamos a pessoa amada menos que a nós mesmos, temos por ela afeição; quando estimamos tanto quanto a nós mesmos, a amizade; quando a estima ultrapassa a nós mesmos, a devoção. Agora, como justificar a paixão que cega as afeições, rompe a amizade e chicoteia a devoção? Estremeções que abalam julgamentos, não se serenizam abaixo de nós nem se agigantam sobre nós, apenas engolem a nossa capacidade de ir embora, nos submetem a uma ausência de tudo. E toda falta se faz repleta de descobertas e esperanças. Outra vez quero escrever, muitas imagens compõem este cenário de fragmentos: a ternura física das palavras no papel, retinas mirando minha alma de verbo, dedos cativando páginas em que exprimo o suco pouco frutífero da solidão.
Ligo a tevê, uma menina de uns 17 beija sofregamente um cara de 30 ou mais, essa amostra de amor recompensa minha ingenuidade. Não estou louco, ainda me emocionam as besteirinhas da juventude. Penso no cheiro dos cabelos da moça da televisão, só que os seios dela saltam para o foco e eu perco o sentimento poético. Pelo menos estou livre da filosofia, não há mais poesia na minha epiderme. Os seios na tela apagam a arte dos olhos, são durinhos demais pra rimarem com minhas retinas. Vontades não são rotas até o firmamento dos deleites. Prazeres inesperadamente cruzam nossa história como paisagens breves… Meninos são assim mesmo, vivem de angústias, cativam fantasmas, inventam memórias e pornografias. Deixa pra lá todas as previsões, algumas esperanças só se assentam no passado. Droga, voltei à filosofia.
Muitos dirão que cativo a tristeza. Ingênuos, não conhecem as minhas penas, o quanto me esquivo, o quanto me acabrunho em todos os receios. Muitos dirão que estou demente, só que a demência não é a categoria primitiva da genialidade. A genialidade só é conseguida pelos que têm a alma inquieta. Mas os inquietos só entendem as leis do conhecimento, a literatura lamenta sua inocente inaptidão. Sou pouco brilhante nesta tarefa de pensar. Minha inquietude ainda sabe pouco do mundo. É preciso calibrar o peso das faltas, medir a gravidade dos fracassos, pôr a mesa no quintal e sorrir dos sonhos arruinados. É preciso, apesar de tantas ameaças, plantar pequenas promessas nesta terra infértil.
Quem sabe amanhã, embora persista a demora, mudemos esta ladainha triste. O corpo não tolera mais as invenções da alma. Bem-vinda, ignorância alheia! Adeus, inquietude amiga!
Postado em Crônicas. Por Geovane Belo. Em 23 de maio de 2010.
Brindamos a despedida dos amantes, taças de cristal, goles de sangue e vinho seco. Tim-tim, até outra vida, amor. A aquarela dos dois destoou. O vice-versa dos sonhos não desenhou mais seus reflexos. Ácido nos olhos. Teus olhos fechados escondem paisagens divinais. Ardência na língua. Tua boca muda mastiga as guloseimas do mundo. Inchaços na carne. Tua mão fechada sepulta carícias, desperta a fastiosa ausência de qualquer coisa sem nome. Suores na pele. Teu cabelo preso aprisiona o vento.
Fartos nos embebemos de nada. Nem a fome nos relega alimento. Os contrários não mais se alinham, o convite virou fuga. Fisicamente, o amor só admite a lógica do absurdo. Perdeu a astúcia, perdeu o discernimento. O sentimento mimoso digladia com a razão.
O espelho despencou da penteadeira, a moldura das recíprocas se partiu. As cores não pintam mais o quadro do dia.
As crianças que trocaram confidências, hoje colecionam farpas. No novo duelo, escamoteiam-se nas falas, nas praças, nas vaidades. Chegou o tempo de segredos sem partilha, entregas sem cânticos, desejos sem afeto, ritos sem nenhum mistério.
Na fronteira do engano, das decepções, das rixas conjugais, o parentesco se tornou alheio. Vontades cúmplices agora inimigas. Religiosamente, o amor só sabe viver do que gerou a fé. Ficam os preceitos na hipótese e só os pecados ressuscitam. O silêncio pode ainda ser decifrado sem o código dos olhares?
Sem mapa procuramos um tesouro. Há muito tempo, vasculhamos cavernas, temíamos o breu. Há muito tempo, flutuamos , temíamos o céu. Navegamos há décadas, não conhecíamos oceanos, não sabíamos nadar. Perdidos no mesmo canto, roubamos todos os sonhos e perdemos todas as esperanças.
Palavras quietas, charadas, entrelinhas, enigmas, coisinhas miúdas sobre a cama, parábolas sem evangelho. Caminhamos até o lugar exato e não encontramos guarida, rotas mal sinalizadas, trajeto sem linha de chegada. Certas verdades só admitem o espanto. Certos dias, confessamos o calor da mentira. O mundo gira, roda gigante de rotações descomedidas, enfado e entusiasmo, coração em ritmo afetado, bilhete caro para vida.
Todas as demoras são batalhas, e todas as lutas entre a esperança e a fantasia estão perdidas. Quando a vida documenta suas partidas, intervalos de ausência se agigantam. Os corpos fuzilados pelo assombro rastejam. Minha pouca memória é inimiga de todas as minhas culpas. Avisto tédio em cada cansaço. Vejo castigo em todos os medos. Não compreendo imprecisões e palavras sem destino. Esvaziadas as lembranças, terei o tédio. Refeitos os planos, terei o futuro. Tudo me apavora, fotos debaixo do colchão, livros com dedicatórias graciosinhas. Do meu lado, o tempo ri da minha mente. Não há temas que cubram as teclas. E diante de tantas negações, todo nosso passado se tinge de tristeza.






