Postado em Poesias. Por Geovane Belo. Em 26 de janeiro de 2012.
Amores infantis são fabulosos, nascem e morrem no esconderijo do coração. Gente grande acha que criança só ama pai, mãe, tia, avó, primo ou prima. Apesar do amor paterno e da ingenuidade que predominam, nessa fase, garanto: primos são prioridades. É porque a possibilidade de eles virarem paixões secretas é grandessíssima.
Os adultos perdem com o tempo, além da inocência, boa parte da memória. Esquecem, por exemplo, as pulsações que causavam seus amores de infância. Parece que o andamento da vida e a corrosão dos desejos da adolescência deletaram alguns dados do nosso antiquado e desgastado sistema operacional amoroso.
A escola. Lugar das primeiras desavenças. Lugar das primeiras letras. Lugar onde notamos pela primeira vez que há muita gente chata, gente que odeia a gente, inconfiável e peçonhenta. Onde iniciamos o exercício da solidão e a nossa grande inclinação para o sofrer. É provavelmente lá que nos alfabetizamos em solidão, e partimos para o percurso longo das ilusões fundamentais, médias e superiores. Aprendemos a refazer as lições. Sobreviver a recuperação. Às vezes, reprovar e tentar de novo. Encontramos na escolinha, no meio de nossos amiguinhos, pelo menos um que nos desestabiliza. O primeiro parece que vai ser pra sempre. O segundo também. O décimo quinto com certeza.
O mais engraçado é que criança apaixonada não é chata como adulto. Adulto se isola, fica deprimido, faz terapia, se embriaga, conta para os amigos; criança quer chamar a atenção sozinha, quer ser mais engraçada, brincar mais, quer falar alto, conquistar a admiração do seu amorzinho pela ação.
Comigo foi igualzinho. Acho que não consigo enumerar minhas namoradinhas imaginárias. Conheci muitas meninas pelas quais me apaixonei. Uma dezena. Não sei se era uma habilidade nata para a canalhice, mas bastava mudar de série ou de escola que eu trocava de paixão. O melhor da criança quando ama é que 99% fazem do seu amor um bem secreto. Até porque reconhecem a falta de lógica, a inutilidade desse sentimento para o outro. Normalmente, o pirralho ama a menininha mais inteligente ou a mais alta da turma, ou então ama a mais bonita que já está de olho em um carinha da outra série, ou pior, que é fascinada pelo professor de matemática. Lembro-me da minha frustração ao ver como a L. crescia. Crescia em espessura, em pernas, em peitinho. E eu, nada! O mesmo tamanho, as mesmas pernas finas, o mesmo jeito desengonçado de falar, de andar, de jogar bola. Nem pelinho sequer aparecia debaixo do braço. A L. falava com as amigas na língua do P, falava que não era mais boca virgem como eu, escrevia caderno de pergunta e resposta todo assanhadinho. Eu, mirrado, só a titela como minha avó dizia. Para os amigos, eu falava alto que tinha uma namorada na minha rua pra ver se ela sentia ciúme, mas mal eu sabia que ela só falava em ficar. Eu, estúpido, contando vantagem com namoro que era coisa ultrapassada.
Criança, mesmo sem saber, experimenta todas as deformidades da paixão, suas angústias, seus encantos, suas inquietudes, porque o melhor do amor, não importa a idade, é justamente o que não se revela, o que não se deixa firmar e por isso mesmo continua intacto, puro e verdadeiro. Ninguém pode saber o nosso segredo. Está enraizado no nosso silêncio. Já sabemos da incompatibilidade, da distância enorme entre querer e realizar, desse modo, melhor esconder os diamantes se eles não têm valor. Nada de contar para os coleguinhas que vão zoar, nada de se declarar porque ela pode rir e chamar a gente de menino velho.
Com certeza, foi uma criança que inventou atitudes românticas como escrever nome do amado na areia, olhar a lua no céu e suspirar pensando nele. Adultos estão apressados demais para criar essas demonstrações de afeto. Para adulto, carinho tem hora na agenda. Adulto trabalha o dia todo e só para no trânsito.
A gente cresce, fica mais endurecido, mais frio, e acredita que amor não é coisa de criança. As bobagens do adulto apaixonado mostram que o amor combina e muito com jeito de criança. É uma raridade, vermos um casal de namorados que não fale a dois como bobos, com aquela voz tosca e idiota de mamãe com bebê no colo. Os namorados adoram apelidos como amoreco, princesa, gute-gute, meu anjinho, coração, neném. Não é só a mudança de voz, os diminutivos na hora de pedir: “amorzinho, um beijinho no seu nenenzinho”, “vamos fazer um amorzinho gotoso”. Com direito a biquinho e careta. Quem está de fora acha pavoroso.
Não há o que contestar, marmanjos amando são meninos tolos em estado de êxtase, regressam ao seu passado de crianças iludidas e apaixonadinhas da Silva. Talvez porque no passado, nada podia ser realizado. Tudo tinha de ficar dolorosamente arquivado. Quando crescemos, normalmente são outras paixões. A maioria ainda falha, pois essa é nossa sina: ambicionar o inconquistável. Mas alguns, com sorte, vingam. E esses, embora incompreensíveis, podem nos presentear grandes alegrias.
E não há felicidade maior do que ver uma criança feliz nos braços ou coxas… de quem ama.






